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Newsletter N.º 226 / 14 de Dezembro de 2025 |
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Direcção Mafalda Ferro Edição Fundação António Quadros |
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ÍNDICE
01 — 15.ª edição do Prémio António Quadros. Divulgação
02 — Elementos da genealogia de Fernanda de Castro, por Mafalda Ferro
03 — Fernanda de Castro, tradutora, no mês do seu nascimento e morte, por Mafalda Ferro
04 — Alfredo Guisado no cinquentenário do seu falecimento, por Fernando de Moraes Gebra (CEL – Universidade de Évora)
05 — «Fernando Pessoa em António Quadros: saber estar para poder estar em toda a parte», por Ricardo Belo de Morais». Memória
06 — Livraria António Quadros, Obra em Promoção até 14 de Janeiro de 2026: Memórias (1906-1987), de Fernanda de Castro. Nova edição, com índice remissivo, dois volumes iniciais reunidos num volume único. Rio Maior: Fundação António Quadros, 2024
EDITORIAL,
por Mafalda Ferro
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2025, é um ano de grandes efemérides para a cultura portuguesa e muito especialmente para a Fundação António Quadros já que celebramos Fernanda de Castro, 125 anos depois do seu nascimento e António Ferro, 130 anos depois do seu nascimento.
A Fundação editou recentemente duas obras de Fernanda de Castro, "Náufragos" e "Memórias (1906-1987)", uma das quais está disponível para venda, em promoção até 14 de Janeiro próximo.
Lembrando, muito especialmente, António Ferro, nascido a 17 de Agosto de 1895 - há 130 anos, informamos que, em sua homenagem, está em curso a finalização de três obras literárias que ajudarão a melhor conhecer o Poeta de Acção que foi.
A primeira publicação inclui ensaios e textos de: Anabela Almeida, António Braz Teixeira, António Ferro, António Quadros, António Xavier, Augusto d'Esaguy, Augusto de Castro, Cândida Cadavez, Carla Patrícia Ribeiro, Diogo de Macedo, Fernando de Castro Ferro, Fernando de Moraes Gebra, Fernando Guedes, Filomena Serra, Francisco Homem Christo Filho, Gelu Savonea, Guilherme d'Oliveira Martins, Jaime Nogueira Pinto, José Carlos Seabra Pereira, José Guilherme Victorino, Leonídio Paulo Ferreira, Lúcio Alcântara, Luís de Oliveira Guimarães, Luís Leal, Mafalda Ferro, Manuela Parreira da Silva, Margarida Cunha Belém, Margarida de Magalhães Ramalho, Maria João Castro, Maurícia Teles da Silva, Paulo Ribeiro Baptista, Ricardo Vieira Lisboa, Teresa Rita Lopes, Tiago Bartolomeu Costa, Vasco Afonso.
A esta efeméride, junta-se outra que não podemos ignorar: 50 anos depois da morte de Alfredo Guisado (30 de Outubro de 1891 / 2 de Dezembro de 1975).
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01 — 15.ª edição do Prémio António Quadros. Divulgação
Lembrando António Ferro, as suas exposições nacionais e as internacionais, o Museu de Arte Popular e tantas outras actividades museológicas, a Fundação comunica que a categoria do Prémio António Quadros (PAQ) é, em 2025, MUSEOLOGIA. O júri, composto por Henrique Cayatte, Margarida Cunha Belém e Margarida de Magalhães Ramalho deliberou atribuir o PAQ, por razões que brevemente serão divulgadas ao Museu de Arte Contemporânea Armando Martins — MACAM.
TROFÉU «VIDA»
A figura que supera o dualismo é a espiral — escreveu António Quadros
«Espiral» foi o nome da revista que fundou e dirigiu (1964/1966). É por isso a espiral que dá forma e sentido de finalidade ao Prémio António Quadros.
Memória descritiva por Cristina Rocha Leiria, autora do Troféu
Apoiada por um só ponto numa base em mogno, a escultura representa simbolicamente a Vida e é formada por dois elementos complementares, esfera e espiral (bronze), criando uma harmonia através das suas próprias polaridades. Como veículo de conhecimento dinâmico, a espiral, nascendo na base da esfera lança-se para o Espaço, em movimento de ascensão, sendo elemento dinamizador de todo o conjunto. No rigor da acção e no lançamento expansivo da mensagem, a consciência evolui atingindo o espírito da essência. |
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02 — Elementos da genealogia de Fernanda de Castro, por Mafalda Ferro
Maria Fernanda Telles de Castro e Quadros Ferro (Lisboa, Rua Ferreira Borges, freguesia de Santa Isabel, aos 30 minutos de 9 de Dezembro de 1900 / Lisboa, freguesia de Santa Catarina, às 21.30 de 19 de Dezembro de 1994)
Avós Paternos: Emygio Marianno Ludovico de Quadros (Goa, 1874 / Lisboa, 1880); Luísa Ignácia de Seixas (Casalinho, 1839)
Avós Maternos: Maria José Bandeira Codina (1854 / 1882); Francisco Liberato Telles de Castro da Silva (1843 –1902).
Tias maternas: Maria José Telles de Castro da Silva Mexia Salema. (1874 / 1971); Maria do Castelo Telles de Castro da Silva (18?? / 1972).
Pais: João Filipe das Dores Quadros, Oficial da Marinha de Guerra (Lisboa, São Julião, 4 de Janeiro de 1874 / Portimão, 7 de Julho de 1943); Ana Isaura Codina Telles de Castro da Silva e Quadros (Lisboa, 1879 / Guiné, 1914).
Casamento dos Pais: Cacilhas, Igreja de São Tiago, 17 de Fevereiro de 1900.
Baptismo: Lisboa, Igreja de Santa Isabel, 21 de Janeiro de 1901.
Padrinhos: Francisco Liberato Telles de Castro da Silva (avô materno); Maria Emiliana Telles de Castro da Silva (tia-avó materna).
Irmãos: Francisco Telles de Castro da Silva e Quadros (1902 / 1983); Manuela Telles de Castro da Silva e Quadros (1903 / 1990); João Telles de Castro da Silva e Quadros (1904 / 1990); Afonso Telles de Castro da Silva e Quadros (1910 / 1977).
Segundo Casamento do Pai: 1917, com Rosa Castel Branco de Lima Ramos Mendes Quadros (1890 / 1965).
Irmãos nascidos do segundo casamento do Pai: Maria Luísa Mendes de Quadros (1921 / 2008) José Manuel Mendes de Quadros (1922–1997); Alberto Mendes de Quadros (1927 / 2024).
Casamento (por procuração): Lisboa, Igreja de Santa Isabel, 12 de Agosto de 1922 / Rio de Janeiro.
Noivo/Marido: António Joaquim Tavares Ferro (Lisboa, 17 de Agosto de 1895 / Lisboa, 11 de Novembro de 1956).
Noivo por procuração, em Lisboa: Augusto Cunha.
Testemunhas do casamento, no Rio de Janeiro: Lucília Simões; Gago Coutinho.
Sogros: António Joaquim Ferro (Baleizão, 13 de Fevereiro de 1860 / Lisboa, 1953); Helena Emília Tavares Afonso Ferro (Tavira, 1 de Abril de 1865 / Lisboa, 21 de Abril de 1946).
Cunhados: Umbelina Raquel Tavares Ferro da Cunha (Lisboa, Santa Justa, 2 de Agosto de 1893 / Lisboa, 19 de Janeiro de 1980); Pedro Manuel Tavares Ferro (Lisboa, 19 de Março de 1891 / Lisboa, 1969).
Casa: Calçada dos Caetanos (hoje, Rua João Pereira da Rosa), n.º 6, 1.º. Bairro Alto, Lisboa.
Telefone: 320867.
Filho António e seus filhos: António Gabriel de Castro e Quadros Ferro (Lisboa, Freguesia dos Anjos, 14 de Julho de 1923 / Lisboa, Hospital da Cuf, 21 de Março de 1993), casado na freguesia das Mercês no dia 8 de Dezembro de 1947 com Paulina Maria de Roure Roquette, pai de seis filhos, dos quais apenas três sobrevivem: Criança de sexo feminino (1949 / 1949), Criança de sexo masculino (1950 / 1950), António Duarte Roquette de Quadros Ferro (1951 /–), Ana Mafalda Roquette de Quadros Ferro (1953 /-), Rita Maria Roquette de Quadros Ferro (1955 /–), Criança de sexo feminino (1956 /1956).
Filho Fernando e seus filhos: Fernando Manuel Telles de Castro e Quadros Tavares Ferro (Lisboa, 1927 / Monte Estoril, 2004), casado em Londres a 30 de Novembro de 1950 com Lee Buckley, pai de duas filhas: Tracy Anne Quadros Ferro (Londres, 1951 / Albergaria-a-Velha, 1961), Grett Barbara Buckley Quadros Ferro (Londres, 1952 / Albergaria-a-Velha, 1961); com Dominique Lemonier, pai de dois filhos: Manuel Vicente Lemonnier Ferro (Rio de Janeiro, 1965 /–), Stephanie Barbara Lemonnier Ferro (Rio de Janeiro, 1968 /–).
Bisnetos e trisnetos: Viria a ter (até ao dia de hoje) 8 bisnetos e 15 trisnetos.
Última morada: Lisboa, Cemitério do Alto de S. João (sepultura perpétua n.º 1940, secção 45). |
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03 — Fernanda de Castro, tradutora, por Mafalda Ferro
No intuito de dar a conhecer outra faceta da obra intelectual de Fernanda de Castro, debruçamo-nos hoje sobre uma actividade ainda pouco conhecida e que lhe dava grande prazer.
Esta sua actividade, no que respeita à tradução da obra de seu marido (1934) e de Oliveira Salazar (1937) são referidas em "Misérias e Esplendores da Tradução no Portugal do Estado Novo", de Teresa Seruya. Lisboa: Universidade Católica Editora, 2018.
Fernanda de Castro foi, ao longo dos anos, acedendo a vários pedidos para traduzir obras literárias e, também, traduzindo obras de sua autoria. De uma forma geral, a Fundação António Quadros tem no seu acervo escritos e livros que comprovam a informação que aqui se publica:
1925 — Tradução da comédia em 3 actos “Knock ou le Triomphe de la Médecine” de Jules Romains (1923), para ser representada pelo Teatro Novo fundado por António Ferro nesse ano com o título “Knock ou a Vitória da Medicina”. A tradução da peça não está publicada mas foi levada à cena entre 2 e 15 de Junho de 1925 no Palácio Tivoli em Lisboa.
1925 — Tradução da peça em 3 actos “Così è (se vi pare)” (Firenze, Bemporad, 1925) de Luigi Pirandello, para ser também representada pelo Teatro Novo, com o título “Uma verdade para cada um”. A tradução da peça não foi publicada mas sabemos que foi levada à cena entre 25 e 29 de Junho de 1925 no Palácio Tivoli em Lisboa.
1926 — Tradução do artigo “Divertissement Philologique” de Valery Larbaud com o título “Divertimento Filológico”. A tradução foi publicada em dois números seguidos do jornal «A Informação» nos dias 17 e 19 de Julho de 1926.
1931 — Tradução da comédia em 3 actos e 4 quadros “La Fugue” (Paris, l'Illustration, 1929) de Henri Duvernois, A tradução da peça não foi publicada mas sabemos que foi representada no Teatro Nacional D. Maria II.
1934 — Tradução para francês de “Salazar. o Homem e a sua obra”, de António Ferro. A tradução foi publicada com o título “Salazar: Le Portugal et son Chef”, com notas de Paul Valéry. Paris: Éditions Bernard Grasset, 1934. [PT/FAQ/B-L/06262]
1937 — Tradução para francês de “Uma Revolução pacífica” de António de Oliveira Salazar. A tradução foi publicada com o título “Une Révolution dans La Paix” com introdução de Maurice Maeterlinck. Paris, Ernest Flammarion, Éditeur, 1937. [PT/FAQ/B-L/01590]
1940 — Tradução da peça de teatro em 5 quadros "L'Abée Setubal" de Maurice Maeterlinck. A tradução da peça não foi publicada mas foi representada em 1941 no Teatro Nacional D. Maria II pela Companhia Amélia Rey Colaço e Robles Monteiro. Existe um manuscrito da tradução datada, com o título "O Padre Setúbal". [PT/FAQ/03/00086]
1944 — Tradução de “Journal” de Katherine Mansfield, edição de John Middleton Murry (1927). A tradução foi publicada em 1944 com o título “Diário” na colecção "Contemporâneos" dirigida por António Ferro, com capa e desenho interior de Manuel Lapa e prefácio de John Middleton Murry. Porto, Livraria Tavares Martins. [PT/FAQ/B-L/06300]
1951 — Tradução da sua peça de teatro em 3 actos “A Espada de Cristal” (Lisboa, Sociedade Portuguesa de Autores, 1990). [PT/FAQ/B-L/01580] com o título “L'Épé de Cristal”. A tradução da peça não foi publicada, nem sabemos se foi terminada mas existe um manuscrito do primeiro acto [FAQ/03/00067]
[Década de 40 ou 50] — Tradução do romance “A Ilha dos Demónios”, de Carmen Laforet, não publicada. Sem outras informações. Existe um manuscrito. [PT/FAQ/03/00041]
1957 — Tradução do conto de fadas em seis actos e doze quadros “L'Oiseau Bleu” (1908) de Maurice Maeterlinck com o título “O Pássaro Azul” (em busca da felicidade) no qual Fernanda de Castro se inspirou para, nesse ano, intitular os seus Círculo de Cultura Infantil e Grupo de Bailado dos Parques Infantis por si fundados e dirigidos. Existe um manuscrito. [FAQ/03/00084]
1963 — Tradução da peça de teatro em dois actos “Le Miracle de Saint Antoine” de Maurice Maeterlinck (Librairie Charpentier et Fasquelle, 1920) com o título “O Milagre de Santo António” para ser representada por Heloisa Cid e Alexandre Ribeirinho, a 29 de Julho, dia da inauguração do Teatro de Câmara António Ferro, na Calçada dos Caetanos em Lisboa. Existem vários documentos: [PT/FAQ/AFC/03/00081], [PT/FAQ/AFC/03/00082], [PT/FAQ/03/00083], [PT/FAQ/AFC/03/00025]
[1964] – Tradução de “Electra” de Sófocles efectuada em 15 dias a partir de uma tradução francesa e de outra espanhola a pedido de Águeda Sena que queria representar a peça. Não publicada. Fernanda de Castro refere o assunto nas suas "Memórias (1906-1987)", Rio Maior: Fundação António Quadros, 2024, pp. 403-404. Manuscrito não localizado.
1967 – Tradução da peça de teatro em um acto “Le Nouveau Locataire” de Eugène Ionesco para ser representada pela Companhia Rey Colaço - Robles Monteiro no Teatro da Trindade em 1970 com o título “O Novo Inquilino”. A encenação foi de Pedro Lemos, os cenários de Lucien Donnat e a interpretação de Madalena Sotto, Pedro Lemos, João Perry e Rui Pedro. A tradução não foi publicada mas existe um manuscrito da tradução, sem data. [PT/FAQ/AFC/03/00087]
1967 (7 de Outubro) – Tradução da peça de teatro em 3 actos “Il piacere dell'onestà” (1917) de Luigi Pirandello, com o título “Volúpia da honra”, (a pedido de Amélia Rey Colaço). A peça foi representada em Lisboa no Teatro Capitólio pela Companhia Rey Colaço – Robles Monteiro em 1968 por Adriano Reys (Ângelo), Mariana Rey Monteiro, Amélia Rey Colaço, Paiva Raposo, Sinde Filipe, Manuel Correia, Baptista Fernandes e Meniche Lopes no âmbito das comemorações do 1.º centenário do nascimento do dramaturgo e poeta italiano Luigi Pirandello. Existe um manuscrito datado. [FAQ/03/00085]
[s.d] – Tradução da peça de teatro em um acto “Le Roi se meurt” de Eugene Ionesco (Editions Gallimard - Collection Folio, 1963) para ser representada com o título “O Rei vai morrer” pela Companhia Amélia Rey Colaço – Robles Monteiro no Teatro da Trindade em 1971. A encenação foi de Amélia Rey Colaço e o guarda-roupa de Lucien Donnat. Estiveram presentes o autor e a tradutora. Existe um manuscrito da tradução (144 fólios), datado. [PT/FAQ/AFC/03/00511]; «Diário Popular», 2-12-1971.
1986/2000 — Tradução para português de “Briefe an einem jungen Dichter” (Leipzig, 1929), de Rainer-Maria Rilke, a partir da tradução brasileira “Cartas a um Jovem Poeta” de Paulo Rónai & Cecília Meireles (1953). A tradução de Fernanda de Castro foi publicada e reeditada (ou republicada) duas vezes, sem data, com cores de capa diferentes (azul, verde e castanho) com introdução também de sua autoria pela Portugália Editora com o título “Cartas a um Poeta” [PT/FAQ/B-L/01584], [PT/FAQ/B-L/01585], [PT/FAQ/B-L/01586], tendo sido em 1986 reeditada pela Contexto Editora, também com a sua introdução [PT/FAQ/B-L/01587], em 1991 [PT/FAQ/B-L/01588] e em 2000 [PT/FAQ/B-L/01967], com o título “Cartas a um Jovem Poeta. |
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04 — Alfredo Guisado no cinquentenário do seu falecimento, por Fernando de Moraes Gebra (CEL – Universidade de Évora)
Alfredo Pedro Guisado (1891-1975) é, nas palavras de Óscar Lopes, o “mais injustamente esquecido dos poetas de Orpheu”.i] E apesar de haver fortuna crítica acerca da sua obraii], o autor continua desconhecido do grande público. Não houve sequer uma iniciativa neste ano do cinquentenário do seu falecimento. A convite da Fundação António Quadros, resolvi deixar aqui algumas palavras que possam aguçar a curiosidade dos leitores acerca desse escritor de muitas facetas.
Nascido em Lisboa a 30 de Outubro de 1891, Alfredo Guisado é filho dos imigrantes galegos António Venâncio Guisado e Benita Abril Gonzalez, que se estabeleceram na capital portuguesa e alcançaram considerável sucesso em negócios, como o restaurante “Irmãos Unidos”. Nos meses de Verão, passava as férias na casa de campo da família, localizada na aldeia Pías, em Ponteareas (Pontevedra), como testemunham as cartas trocadas com António Ferro e Augusto Cunha (arquivadas na Fundação António Quadros) e com Maria Guilhermina Ferreira (acervo pessoal de Carlos Pazos Justo).
Fotografia de Alfredo Guisado, cedida ao autor Fernando de Moraes Gebra: Acervo da Fundação Instituto Marques da Silva FT/Coleção literatura do modernismo português. FIMS/FT/Col-1-Lote07-01-001
O talento literário de Alfredo Guisado começou a ser notado a 6 de Janeiro de 1912, quando publicou seu primeiro poema, “Noites de Inverno”, em El Tea, um semanário agrarista de Ponteareas, fundado e dirigido por Amado Garra. Entre 1912 e 1927, participou activamente desse periódico com a publicação de poemas – alguns dos quais integraram o livro Rimas da Noite e da Tristeza (1913) – e textos em prosa, alguns de forte intervenção política acerca dos problemas dos trabalhadores rurais daquela região. Em alguns desses textos em prosa, adoptou o pseudónimo Refaldo Brila.
Em 1914, publicou Distância, uma colectânea de poemas dedicada aos seus amigos Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, António Ponce de Leão, António Ferro e Augusto Cunha. O último poema do livro, “Asas Quebradas”, já havia sido publicado na revista A Renascença (número único em Fevereiro de 1914). Com procedimentos estéticos simbolistas e decadentistas, este livro já revelava um escritor preocupado com os experimentos na linguagem poética, que caracterizam o primeiro Modernismo em Portugal.
Pode-se dizer que 1914 foi um ano embrionário da revista Orpheu, cujo primeiro número foi posto à venda em fins de Março de 1915 e o segundo, em Junho do mesmo ano. Com apenas dois números, a revista deixaria um legado na literatura portuguesa do século XX, entretanto, causou um enorme escândalo na sociedade portuguesa daquela época, habituada a formas literárias convencionais e até mesmo desgastadas. O impacto fez-se sentir na recepção galhofeira da revista na imprensa lisboeta, “que os situava entre a paranóia e a mistificação, entre a loucura rilhafolesca e a blague dos cafés”.[iii]
Alfredo Guisado publicou treze sonetos no primeiro número de Orpheu, posteriormente integrados no livro Ânfora (1918). Ademais, deu apoio financeiro à revista, como se evidencia em carta de Sá-Carneiro a Fernando Pessoa de 10 de Dezembro de 1915. Não publicou no segundo número devido ao receio de sua família que temia ter seus negócios prejudicados com a repercussão negativa da revista. Todavia, para conciliar sua crescente participação na política com sua produção literária, passou a utilizar o pseudónimo de Pedro de Menezes (formado pelo seu segundo nome e por um apelido de família) nos poemas publicados na revista Exílio (número único em Abril de 1916) e nos livros Elogio da Paisagem (1915), As Treze Baladas das Mãos Frias (1916), Mais Alto (1917), Ânfora (1918) e A Lenda do Rei Boneco (1920).
A par de dois eventos importantes no início da década de 1920 – a formatura em Direito em Novembro de 1920 e o casamento com Maria Guilhermina Ferreira em Agosto de 1921, com quem teve dois filhos – destaca-se a publicação do livro Xente d’a Aldea. Versos Gallegos, para o qual Alfredo Guisado usou seu nome verdadeiro. Este livro, com capa de Alfonso Rodríguez Castelao, contém poemas escritos em língua galega, alguns dos quais haviam sido publicados nos órgãos de imprensa galegos El Tea, A Nosa Terra e Nos. O galeguismo de Alfredo Guisado manifesta-se no livro de 1921 e em outros textos estampados ao longo de sua vida, como a evocação do artista Castelao publicada a 3 de Fevereiro de 1958, na primeira página do jornal República. [iv]
Militante do Partido Republicano Português (PRP), Alfredo Guisado teve uma importante carreira política, interrompida pela Revolução Nacional de 28 de Maio de 1926, que pôs fim à 1ª República. Após esse acontecimento e alijado de cargos políticos, voltou a publicar um novo livro em 1927. Trata-se de um pequeno conjunto de poemas intitulado As Cinco Chagas de Cristo que remetem para as batalhas que Portugal perdeu ao longo da sua História. Após esse poemário, voltou a publicar textos em livro apenas em 1969, quando reuniu os poemários de 1915, 1916, 1917 e 1918 sob o título Tempo de Orfeu, e em 1974, quando publicou um livro de contos infantis chamado A Pastora e o Lobo e Outras Histórias.
No prefácio do livro de 1969, Urbano Tavares Rodrigues destaca nos textos de Alfredo Guisado uma poética repleta de “imagens refractadas”, “ousadia metafórica” e “regências anómalas”, importantes dispositivos estilísticos para transmitir aos leitores de seus poemas a “intercomunicação secreta das coisas”, em que o poeta assiste “aos fenómenos do seu existir” e se lança “aos pedaços a espelhos mágicos com áurea moldura, que parecem sumptuários e afinal abrem portas para outro universo”. [v]
Apesar do longo hiato que medeia a publicação do poemário de 1927 e dos livros de 1969 e 1974, Alfredo Guisado continuou a sua produção literária na imprensa. Membro da oposição ao Estado Novo, Alfredo Guisado dirigiu a secção literária do jornal República de 1943 a 1972, onde escreveu numerosas recensões críticas acerca de obras publicadas nesse período, textos memorialísticos sobre o grupo do Orpheu e poemas assinados com o seu próprio nome ou sob o pseudónimo de Filomeno Dias. Também compôs crónicas sob os pseudónimos de Domingos Dias Santos e João de Lobeira, entre outros textos que constituem uma retomada da sua produção literária. Em 1954, tornou-se director-adjunto desse jornal, o único que se opunha ao Estado Novo e era tolerado por Salazar.
Entre 1953 e 1954, iniciaram-se os preparativos para a remodelação do Restaurante “Irmãos Unidos”. Em Setembro de 1953, ocorreu o encontro dos três sobreviventes de Orpheu, Alfredo Guisado, Armando Côrtes-Rodrigues e José de Almada Negreiros, que “decidem assinalar, naquele espaço, depois de remodelado, a presença de Orpheu”. [vi] A ideia, entretanto, vinha de longe: Alfredo Guisado comenta, em texto publicado em República, ter sido de Luís de Montalvor a proposta de se colocar uma lápida comemorativa no restaurante “Irmãos Unidos”. Junto à lápida, conforme sugestão do irmão de Alfredo Guisado, então proprietário do estabelecimento, seria colocado um retrato do grupo ao estilo do Grupo do Leão, de Columbano Bordalo Pinheiro, ideia que acabou por ser substituída pelo retrato de Fernando Pessoa, de autoria de Almada Negreiros.
Em 1958, ocorreu novo encontro em Lisboa dos três membros sobreviventes do Orpheu quando planearam escrever O Orpheu por Dentro, um conjunto de memórias dos três integrantes vivos do grupo. O objectivo do livro era desconstruir equívocos interpretativos de críticos literários como João Gaspar Simões e Adolfo Casais Monteiro. Almada Negreiros e Côrtes-Rodrigues não puderam participar do projecto, entretanto, Alfredo Guisado decidiu seguir adiante com sua ideia. Embora não tenha conseguido publicar o livro, deixou vários textos nas páginas do jornal República, que estou actualmente a organizar com vistas à publicação em livro.
Após o seu falecimento a 30 de Novembro de 1975, há cinquenta anos, ficaram inéditos alguns textos que foram publicados em 1996 sob o título Tempo de Orfeu II por José António Fernandes Camelo. Em 2022, publiquei uma plaquette de 1915 também intitulada As Cinco Chagas de Cristo na revista americana Pessoa Plural.[vii] Este conjunto, apesar de ter o mesmo título do livro de 1927, compõe-se de poemas que apresentam um ritual de um “Eu” que se torna palco da Paixão de Cristo em uma catedral. Em outras palavras, trata-se de uma experiência literária na intersecção de paisagens onde o “Eu” assume o lugar de Jesus no momento da crucificação. Existem ainda outros livros inéditos de Guisado, guardados por sua família, que merecem ser publicados para que os leitores tenham acesso a uma poética marcada por um imaginário no qual a paisagem se encontra em incessante movimento.
[i] Lopes, Óscar (1966). História ilustrada das grandes literaturas. Literatura Portuguesa. Lisboa: Estúdios Cor, v. VIII. p. 715.
[ii] É o caso de ensaios de autores como Urbano Tavares Rodrigues, José Carlos Seabra Pereira, António Apolinário Lourenço, José António Fernandes Camelo, Armando Lúcio Vidal, Carlos Pazos Justo, Fernando de Moraes Gebra, dentre outros.
[iv] Guisado, Alfredo (1958). “Evoca-se um genial artista galego. Um desenho inédito de Castelao feito há 28 anos num café de Pontevedra e algumas notas sobre o inesquecível músico, pintor e escritor que foi um devotado amigo de Portugal”. República, 3 de Fevereiro, 1958. p. 1 e 9. Dei a conhecer este texto disperso em artigo publicado em 2016: Gebra, Fernando de Moraes (2016). “Alfredo Guisado e a Galiza no periódico República”. Uniletras, v. 38.2, p. 265-278. https://revistas.uepg.br/index.php/uniletras/article/view/9454
[v] Rodrigues, Urbano Tavares (1969). “Redescoberta da poesia de Alfredo Guisado”. In Guisado, Alfredo. Tempo de Orfeu. Lisboa: Portugália. p. XIII.
[vi] Almeida, Anabela (2014). As constantes de Orpheu na obra de Armando Côrtes-Rodrigues. Tese de Doutoramento em Estudos Portugueses / Estudos de Literatura. Lisboa: Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa. p. 151.
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05 — «Fernando Pessoa em António Quadros: saber estar para poder estar em toda a parte», por Ricardo Belo de Morais». Memória
Nos passados dias 4 e 5 deste Dezembro, respectivamente no Anfiteatro Nobre da Faculdade de Letras da Universidade do Porto e no Auditório da Biblioteca Nacional de Portugal em Lisboa, desenrolou-se o colóquio “Leituras Filosóficas de Fernando Pessoa”, com organização de Maria Celeste Natário (IF-UP), Rui Lopo (IF-UP), Wanderley Dias da Silva (IF-UP) e Nuno Ribeiro (IELT, NOVA FSCH).
Participaram, entre vários outros, conferencistas como Ricardo Belo de Morais, Maria Celeste Natário, Rui Lopo, Wanderley Dias da Silva, Renato Epifânio, Nuno Ribeiro, Julia Alonso Diéguez, Armando Nascimento Rosa, Daniel Castro Lobo, Fabrizio Boscaglia, Manuela Parreira da Silva, Mário Vítor Bastos e Paulo Borges.
O colóquio abordou temas nucleares da filosofia pessoana e nomes de referência como Fernando Pessoa e Eduardo Lourenço, José Marinho, Dalila Pereira da Costa e José Gil, além de António Quadros, que foi tema central da comunicação do escritor e investigador literário Ricardo Belo de Morais: «Fernando Pessoa em António Quadros: saber estar para poder estar em toda a parte».
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Nas palavras de Ricardo Belo de Morais, “esta minha comunicação nasceu por convite dos organizadores, conhecedores da minha devoção ao papel único, inigualável e pioneiro nos Estudos Pessoanos. Tive a maior alegria em descer ao pormenor do António Quadros identificador de um modelo de edifício para a Filosofia pessoana, indo muito além dos levantamentos arqueológico-filológicos de António de Pina Coelho para a Ática, no espólio de Pessoa. António Quadros reconstruiu a cronologia do processo filosófico de Fernando Pessoa à luz da frase “Eu não evoluo, viajo”, identificando magistralmente os estádios filosófico, neopagão e gnóstico nas reflexões filosóficas do poeta de «Mensagem» - algo que logrei apresentar e explicar com detalhe, ainda que necessariamente resumido. António Quadros destaca também o papel da mística e do sebastianismo na obra de Pessoa, filosófica também; e não esqueci isso. O verso pessoano ‘roubei’ para título e fio condutor desta minha comunicação, “Saber onde estar para poder estar em toda a parte” (do poema “Sentir tudo de todas as maneiras”, de Álvaro de Campos em 22-5-1916 para o projecto de «Passagem das Horas»), pareceu-me sonora e metafisicamente adequada às buscas filosóficas Quadros-Pessoa, uma vez que convida à reflexão sobre o paradoxo entre a localização e a omnipresença, sobre o saber situar-se e, a partir desse conhecimento, expandir a própria presença para além do espaço físico. “Saber onde estar para poder estar em toda a parte” sintetiza um dos grandes dilemas filosóficos da existência: a necessidade de enraizamento para possibilitar a expansão. Trata-se de uma provocação filosófica que nos leva a questionar o significado de estar, de pertencer, de fazer raízes, mas de transcender limites geográficos, sociais e até existenciais. Algo que tanto Pessoa quanto o seu devoto Quadros tão bem conseguiram…” |
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06 — Livraria António Quadros
Obra em Promoção até 14 de Janeiro de 2026
Autoria: Fernanda de Castro [1900-1994]
Título: Memórias (1906-1987). Nova edição, com índice remissivo (dois volumes reunidos num volume único).
Imagem de capa: Fernanda de Castro, 1924.
Coordenação, introdução, fixação de texto, índice remissivo: Mafalda Ferro.
Edição: Rio Maior: Fundação António Quadros Edições, Dezembro de 2024.
Encomendas: geral.faq@gmail.com
PVP (até 14 de Janeiro): 15,00 |
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