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Newsletter N.º 234 / 14 de Agosto de 2026
Direcção Mafalda Ferro Edição Fundação António Quadros

ÍNDICE

01 — A Alma tumultuosa de António Ferro, por Carlos Drummond de Andrade.

02 — António Ferro: a aventura e a ordem, por José António Barreiros.

03 — António Ferro no ensino digital: «Mulheres de Ferro», por Fernando Gebra.

04 — António Ferro no seu tempo com Salazar, por Mafalda Ferro.

05 — Carta a meu marido, António Ferro, por Fernanda de Castro.

06 — António Ferro em tempo de férias na Quinta do Malha-Pão, por Fernanda de Castro.

07 — Livraria António Quadros, Obra em Promoção até 14 de Setembro de 2026: "Colette, Colette-Willy, Colette", de António Ferro.

 

EDITORIAL,
por Mafalda Ferro

 

Prestamos hoje, e sempre, homenagem a António Ferro no mês do seu nascimento, 17 de Agosto, há 131 anos (1895), setenta anos depois da sua morte (1956), dando a conhecer a sua personalidade e obra através de um excelente artigo de Carlos Drummond de Andrade publicado no Brasil, e de outros interessantíssimos textos.

 

«Inês Guerreiro, uma artista modernista, clara e luminosa como a sua Alma»  

(21 Julho / 30 de Agosto de 2026)



A exposição sobre «Inês Guerreiro, uma artista modernista» continuará visitável até ao final de Agosto sendo seguida pela exposição «Passeando na Praia», aberta ao público a partir de 3 de Setembro.

 

«Passeando na Praia...»

(3 / 26 de Setembro de 2026)


Numa época não muito longínqua, era habitual encontrar nas praias portuguesas, junto às costas, conchas e búzios de inúmeros tamanhos, feitios e tonalidades com que as crianças construíam colares, tiaras e pulseiras ou castelos e outras figuras de areia. Hoje, tal já não acontece. A exposição mostra uma colecção única, pertencente à Fundação António Quadros, reunida durante os anos sessenta por Fernanda de Castro durante os seus longos passeios por praias algarvias.


Ambas as exposições, promovidas pela Fundação António Quadros, sob a curadoria de Mafalda Ferro, apoiadas pela Câmara Municipal de Rio Maior, estarão patentes no espaço museológico da Biblioteca Municipal de Rio Maior / Fundação António Quadros (Rua Dr. Fernando Sequeira Aguiar, Rio Maior, nas datas anteriormente referidas).
 

 
01  A Alma tumultuosa de António Ferro,
por Carlos Drummond de Andrade


Na avenida Affonso Penna, às dezasseis horas, uma chuva dramática descabelava as árvores. E havia nas árvores a saudade lírica e infinita de sol. Os bondes guinchavam, repletos. Guarda-chuvas esparsos punham círculos pretos no dorso cinzento da rua. E foi quando eu entrei na livraria Moraes, onde se achava um cavalheiro gordo, esparramado sobre uma cadeira. Esse cavalheiro gordo era um homem absolutamente sensacional: António Ferro.


Há, quase sempre, um grande desencanto no conhecimento das pessoas notáveis. O resto que nos mostram não vale a obra que nos apresentam. Há detestáveis sujeitos com a autoria de livros fascinadores. E é comum ouvir-se alguém murmurar: O X escreveu um lindo romance, mas que grandíssimo patife! Eu estava, pois, diante de um perigoso acontecimento. Ia conhecer o autor da Teoria da Indiferença, e esse homem desconhecido podia ser tudo, até vulgar, o que é o pior dos crimes, no dizer de Wilde...


Felizmente o céu, que está cheio de deuses amáveis e benfazejos, operou um prodígio risonho. O cavalheiro gordo levantou-se, e logo cresceu diante de mim o amigo de dAnnunzio, o homem que sofrera o prestígio mágico do poeta soldado, numa noite de Fiume noite fria e cortante, em que havia espadas no luar.


Poeta!


Porque em António Ferro o que há, acima de tudo, e tudo absorvendo, é o poeta, um poeta irritantemente moderno, barulhento e blagueur, perverso e amoral. Um poeta que se envenenou com todos os tóxicos maravilhosos do século, que tem uma desesperada visão de beleza, e que tudo sacrifica á sua arte de incêndio. Esse escritor de livros rápidos e violentos veio ao mundo para gritar espantos e deslumbramentos íntimos. Não acredita nem no que lhe dizem os sentidos atentos e ágeis: constrói dentro dalma um universo à parte, onde imperam as irremediáveis volúpias do amor, da tragédia e da morte. Só acredita no que lhe dizem os sentidos ágeis e atentos: passeia pela terra inteira a sua alegria selvagem de criança, e os seus arrepios de homem-instinto. O mais contraditório dos demónios e o mais delicioso de todos...


Meus lábios pronunciam, ainda uma vez, a palavra sagrada:

 
— Poeta!


Eu quisera fazer coluna e meia de calmos pensamentos e sábias reflexões. Não posso, não poderei com certeza praticar semelhante prodígio. Tenho que extravasar assim mesmo a desordenada multidão de coisas que me sugeriu a figura gritante de António Ferro. Em torno dessa palavra — Poeta — quantas outras giram em sarabanda, e ameaçam inundar-me o artigo, santo Deus! António Ferro, escandalosamente moderno, só pode ser sentido e apreciado aos ímpetos, na vertigem de um Handley Page, à máxima velocidade, sobre a miséria das turbas banais. Perdão, disse mal! Não pode ser apreciado, mas apenas sentido, e é esse o seu maior elogio.


Estou a escrever sobre o dissecador da Leviana sem ter diante de mim nenhum dos seus livros. E abençoo esta casualidade. Falo do artista sem recorrer a nenhuma impressão imediata e provavelmente falsa, colhida numa leitura intencional, de lápis em punho. De António Ferro, o que me ficou, vibrante, incisivo, foi a emoção da primeira leitura, feita pela volúpia única de ler, sem preocupações de critica e análise.


Ele há-de ser sempre, para mim, o poeta da Árvore de Natal, que animou paisagens épicas no Gabrielle d'Annunzio e eu, fez a psicologia epidérmica de uma encantadora mulher na Leviana, e traçou postulados de elegante cinismo, na Teoria da Indiferença. O poeta sempre o poeta-clown, desdenhoso da natureza e apaixonado da arte, transformando a verdade na última das mentiras, e reintegrando a mentira no glorioso lugar que os mestres lhe concederam. António Ferro, esse risonho artista, é uma inteligência alarmante. Aliás, não há nada mais alarmante que uma inteligência...


Na noite de terça-feira, qualquer coisa de grave me conduziu ao Municipal. E eu que ia ouvir novamente esse escritor perigoso, que traz sempre ao colete o punhal avisado de um paradoxo. Devia estar espavorida a nossa polícia literária...


O velário subiu, desnudando o palco. Precedendo a conferência do homem tumultuoso, falou o poeta Abgar Renault, uma das criaturas mais finas do nosso meio. E o que ele disse, gracioso e justo, revelou a mobilidade de um espírito, romântico por feição original, que sabe compreender outros absolutamente diversos. Logo depois, António Ferro e a sua conferência. António Ferro e a Arte de bem morrer, arte irónica e subtil, que perturba o auditório, e que o fascina...


A vida e a morte são simples brinquedos para esse caçador de emoções. A vida não é mais que um minuto artificial, o pretexto para um pouco de ilusão e mistério, a taça frágil que deverá conter o vinho da morte. A morte, um pano de boca, uma frase de efeito, e mais nada... dita a frase, cai o pano, e o público fica proibido de pedir bis.


O artista correndo ao longo das idades, vai exumando figuras que lindamente morreram e que, por isso mesmo, fazem jus á nossa veneração. A morte de Cristo, o rosário de mortes na guilhotina, sob o Terror, a de D. Sebastião, e outras, e outras... Chegamos á Casa de Assassinatos, montada pela engenhosa eficiência de Landru, que António Ferro qualifica de “proprietário de casa de moveis” ...


— As mulheres são móveis. E há mulheres estantes, mulheres-secretárias, divans, abat-jours, etc.…


Em suma: António Ferro, que tem um jazz-band na alma, deixa fugir dos lábios o eco da sua desvairada música interior.

Eu não posso imaginar o que vai dentro desse cavalheiro gordo, que vive em 1923 como no ano 2000.
Provavelmente haverá, além do jazz-band, e deliciando-se com ele, um arlequim, um fauno, uma crença, um yankee de Los Angeles, um bolchevista e um demónio. E que ruidosa festa realiza essa chusma de almas vertiginosas, dançando e sorrindo! Talvez que a arte de António Ferro seja apenas um longínquo e pálido reflexo do seu espírito perenemente agitado. Mas é uma arte franca, feliz, bem vestida e bem rápida.

António Ferro escreve dentro de um automóvel delirante, entre milhares de automóveis alucinados...


Diário de Minas, 8 de Fevereiro de 1923 [FAQ-02-0180-00059]

 

02  António Ferro: a aventura e a ordem,
por José António Barreiros


Foram dois dias intensos, o primeiro na Sociedade Histórica da Independência Nacional, em Lisboa, o segundo em Rio Maior na Fundação António Quadros, a qual, em comparticipação com o Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, organizou o evento.

Notáveis comunicações que em breve estarão em livro preencheram a agenda.

Tive a oportunidade de participar com um texto do qual, sem que seja legítima defraudar quem promoverá a sua publicação, deixo aqui uns brevíssimos excertos. 
Intitulei-o António Ferro: a ética e a estética da transgressão.

A abrir, anunciei o propósito: «Estudar a faceta contraventora de António Ferro é, em si mesmo, acto de transgressão face àqueles que, como se tratasse de um homem unidimensional, teimam em situá-lo como mero apparatchik de uma política conservadora, protagonizada por um político retraído, de perfil eclesiástico que a si mesmo se impunha viver habitualmente. Político que, diga-se, deve a António Ferro ter tornado a sua inteligência fama» […]. O que me proponho neste ensaio é, num primeiro registo, seguir as pisadas da sua vida, mormente a literária e artística, nele surpreender não apenas aqueles rompantes transgressivos mais conhecidos, como outros que têm sido menos destacados; para além disso, assumida a natureza polimórfica da sua personalidade, achar quanto nela existe de contraditório, e assim humano, por um lado, a equação entre a sedução pela disrupção e pela desconformidade, que o atraíram, enquanto artista; por outro, o fascínio pela ordem protagonizada pelos regimes políticos fortes, com quem se entrevistou como jornalista».


Tentando cumprir esse anunciado método, segui a sua vida e obra, para ir ao encontro dos momentos significativos em que entrou em ruptura com o expectável e em desconformidade com o convencional.


E assim, logo a juvenil ruptura, ao ter frequentado quase na íntegra o curso de Direito, mas ter-se recusado a completar a licenciatura, ao contrário de ilustres colegas seus de curso, como Azeredo Perdigão e Bustorff Silva, trocando o jurídico pela Arte e nomeadamente pela Literatura, onde se iniciou com um livro de «quadras dos 17 e 18 anos», em coautoria com aquele que viria a ser seu cunhado, Augusto Cunha e que intitulou Missal de Trovas.


Impressionaram-me na sua escrita duas facetas.

Uma delas, porquanto inesperada, a erótica, ostensivamente libidinosa, presente logo em 1917 com a conferência As Grandes Trágicas do Silêncio, dedicada a três estrelas italianas do cinema mudo, ode à sensualidade e de culto da imagem, em que o conferencista analisou e exaltou a beleza mítica das referidas estrelas do cinema, transformando-as em ícones de uma «orgia pagã», tendo aberto controvérsia na sociedade portuguesa da época, mas que seguiria o seu curso com Leviana, escrita em 1919, ficção apta a escandalizar pela carga erótica que acumula e pela circunstância de o narrador gerar a ilusão, se não a suspeita, de ser o próprio autor, o amante da leviana criatura e nomeadamente na peça de teatro Mar Alto, levada à cena no Brasil e em Lisboa, com escândalo e proibição da mesma, nesta cidade, por ordem do Governo Civil.

Outra, a sua adesão ao Modernismo e à deriva deste movimento, o Futurismo, que significou a assunção do seu conatural espírito de rebeldia, agora por opção estética consciente e sobretudo o virulento manifesto Nós!, eco da voz tonitruante de Marinetti, proclamando: «Cheira a defuntos, cheira a defuntos em Portugal … Não andamos, não andamos, trasladamo-nos … É preciso gerar, criar … Os livros são cemitérios de palavras. As letras negras são vermes. As telas dos pintores são pântanos de tinta. O nosso teatro é um museu Grevin. Não há escultores, há ortopédicos! ...».


Claro que ao desregrado se contrapõe o ordeiro, numa dialética tensional típica do génio.

E daí o seu fascínio por Sidónio Pais, a «figura esbelta de Sidónio, o nosso primeiro republicano sem barrete frígio, quem me arrancou a este adormecimento a esta modorra». Por isso o seu alinhamento com Filomeno da Câmara, desde Angola, onde Ferro com ele colaborou, como ajudante de campo, primeiro, e Secretário-Geral da então denominada Província, e com quem se mobilizaria, em 1927, para a post-sidonista Revolta dos Fifis [porque envolvia na liderança Filomeno e Fidelino Figueiredo] e lhe custaria a breve detenção no Forte de São Julião da Barra.

E, enfim, abram-se alas, pela importância que significou para ambos, as entrevistas a Oliveira Salazar, as primeiras estando este no cargo de Ministro das Finanças e as posteriores já enquanto Presidente do Conselho de Ministros.

Foi a partir daqui que se gerou uma relação próxima entre os dois homens.

Explicando o facto, Ferro escreveu no livro dedicado a D. Manuel II, que entrevistou fugazmente em Inglaterra e em cujo funeral se incorporou: «Foi necessário, porém, que passassem dez ou doze anos, necessário, sobretudo, encontrar Salazar, para que tal acordo entre a minha razão e a minha sensibilidade se estabelecesse em bases sólidas e seguras».


Quem ler essas entrevistas notará aquilo que Franco Nogueira assinalou na sua biografia de Salazar: «[…] não ficou defeso assunto algum, por mais difícil que seja, ou mais delicado ou politicamente mais escabroso», porquanto Ferro não se exime «a abordar os pontos críticos da situação».


E assim tais entrevistas passaram, na risonha paródia lisboeta, como: «Salazar passado a Ferro».


[O presente texto foi publicado recentemente pelo autor
no jornal «As Artes entre as Letras», quinzenário cultural que se edita no Porto]

 

03 — António Ferro no ensino digital: «Mulheres de Ferro»,
por Fernando de Moraes Gebra (CEL – Universidade de Évora)

No Colóquio António Ferro, 70 anos depois, divulguei a minha investigação sobre os textos de imprensa do escritor. O encontro realizou-se nos dias 19 e 20 de Junho de 2026, na Sociedade Histórica da Independência de Portugal e na Fundação António Quadros. Sob o título “Mulheres de Ferro em Batalha de Flores: corpo, escrita e vida social”, discorri acerca das crónicas inicialmente publicadas em O Jornal, Diário de Lisboa e Ilustração Portuguesa. Com o intuito de divulgar a obra de António Ferro para um público mais vasto, resolvi transformar essa apresentação em vídeo-aulas. Uma delas já está disponível no meu canal no Youtube, o Biblioteca Portugal.


O que encontramos no Biblioteca Portugal? Em cada aula, ilustrada com slides e fotografias, faço comentários sobre movimentos estéticos e obras fundamentais da literatura universal, com destaque para as obras literárias portuguesas. Utilizo uma abordagem interartística, isto é, mostro de que maneira a literatura dialoga com outras artes, como a pintura, a escultura, a arquitectura e o cinema. Também ensino técnicas de análise literária, fundamentais para a leitura profunda de um texto artístico. O meu objectivo é ajudar os telespectadores a ler cada texto através da “interpretação dialeticamente íntegra”, um conceito do crítico brasileiro Antonio Candido. Na prática, explico como elementos externos – sociais, psicológicos, económicos, políticos, religiosos, filosóficos –  passam a formar a estrutura interna da obra.


Segue o link do canal: https://www.youtube.com/@bibliotecaportugal


Na vídeo-aula “Mulheres de Ferro no Modernismo Português”, analiso as personagens femininas das crónicas de Batalha de Flores, de António Ferro. Levo os espectadores até à Lisboa do pós-Primeira Guerra Mundial. O objectivo? Perceber como artistas plásticos e escritores representaram as várias faces da mulher moderna. Os principais temas da aula incluem: a) A imagem da mulher na obra de António Ferro; b) As metáforas e as metonímias usadas para descrever estas mulheres; c) O cronista voyeur e flâneur; d) A relação entre texto e imagem no Modernismo de 1910-1920; e) Análise das obras de arte mencionadas nas crónicas; f) As crónicas de Ferro e a sociedade portuguesa da época.


Segue o link para a aula:

https://www.youtube.com/watch?v=5ZdyjFI6QYM&t=138s


Correcção: Em vez de «Serviço Nacional de Inteligência»: «Secretariado Nacional de Informação».


As vídeo-aulas do projecto Biblioteca Portugal pretendem democratizar o acesso à literatura e às outras artes. O canal no YouTube também divulga apresentações académicas, como a investigação "Mulheres de Ferro em Batalha de Flores", ensinando a ler textos literários através da relação entre a sociedade e a estrutura artística. Convido todos os interessados em literatura e outras artes a conhecer Biblioteca Portugal e a variedade de autores e livros comentados nesta plataforma.

 

04  António Ferro no seu tempo com Salazar,
por Mafalda Ferro


Nas primeiras décadas do século XX, não existia uma verdadeira barreira que distinguisse conceitos como propaganda, publicidade nacional e informação. Por essa razão, em muitos casos, os jornalistas eram frequentemente designados como propagandistas já que o termo «propaganda» só viria a ser conotado negativamente durante e após a II Guerra Mundial. António Ferro foi um desses jornalistas.


Iniciando a sua actividade jornalística profissional em 1920, assumiu, desde então, nesse âmbito, diversos cargos em publicações periódicas e, atravessando fronteiras França, Itália, Espanha, Áustria, Turquia, Estados Unidos...  entrevistou os Grandes da Arte, do Cinema, da Moda, do Teatro, da Literatura e, também, da Política  demonstrando, desde então, neste campo, um forte interesse por figuras fortes e proeminentes de regimes autoritários, interesse que já anteriormente evidenciara por Sidónio Pais e por Filomeno da Câmara.


Prestando funções no «Diário de Notícias» desde 1926, Ferro solicitou a Salazar que lhe concedesse uma entrevista, entrevista essa que viria a transformar-se numa série de cinco que, depois de publicadas, contribuíram grandemente para a projecção da imagem de Salazar e do próprio regime do Estado Novo.


Terá sido o enorme impacto dessas entrevistas que valeu a Ferro a estima de Salazar e a posterior nomeação para a chefia do SPN.

[José Guilherme Victorino, p.158]


Essas entrevistas viriam a revelar-se uma jornada de conhecimento mútuo, uma jornada em que ambos, sem que, talvez, disso, intelectualmente, se apercebessem, sentiram o quão proveitosa uma ligação entre os dois poderia vir a ser. Salazar gostou da abertura demonstrada por António Ferro para introduzir as alterações por ele sugeridas
e foram muitas como se pode comprovar nos dactiloscritos com rectificações manuscritas por Salazar, preservados na Fundação António Quadros.

[FAQ/04/00455].


E foi assim, deste encontro da minha fome de acção, da minha audácia, já então reflectida, com o espírito construtivo, compreensivo e sereno de Salazar, que nasceu o Secretariado da Propaganda Nacional
. [António Ferro, em Catorze anos de Política do Espírito, p.25] 


Do nosso ponto de vista, António Ferro terá aceitado o cargo, por acreditar que com o beneplácito de Salazar poderia criar projectos sonhados de acordo com os próprios gostos e convicções e em prol do crescimento cultural do país mas, também, porque, no seu entender,
o seu trabalho se desenrolaria sobretudo na esfera do jornalismo. O facto é que o trabalho que começou por realizar não era jornalismo, era apenas um executar de tarefas associadas à feitura, tratamento e registo da imprensa publicada em Portugal ou no estrangeiro sobre Portugal e também ao tratamento e publicação dos discursos de Salazar.


Estratégica e rapidamente, Ferro foi ampliando o âmbito do SPN e concretizando um conjunto de acções ligadas à arte, à literatura, à construção de projectos culturais e ao turismo, assuntos que realmente o apaixonavam. Salazar acolheu essas iniciativas como parte da sua própria estratégia de propaganda sem se aperceber (ou talvez sim) que Ferro, apesar dos objectivos políticos inerentes, tinha uma missão na qual acreditava profundamente: a construção de um Plano Cultural para o país que desse a conhecer aquém e além-mar o que de melhor existia e se fazia em Portugal, que desenvolvesse os costumes tradicionais, a arte popular, a auto-estima do povo e que colocasse Portugal no centro da Europa. António Ferro era um Homem do Mundo, com um coração e uma alma portugueses mas tinha a perfeita noção de que as suas realizações, para Salazar, constituíam inteligentes acções de propaganda.


Assim, no âmbito da sua «Política do Espírito», António Ferro foi, por diversas vias, conseguindo dar trabalho e apoiar intelectuais, músicos, artistas plásticos e dramáticos, independentemente de orientações políticas, sexuais, sociais ou religiosas.

Aliás, durante os 16 anos que trabalhou no SPN que, em 1944, viria a ser substituído pelo Secretariado Nacional de Informação, Cultura Popular e Turismo (SNI) muitos foram os projectos que Ferro idealizou e viu concretizados.


Salazar, sem nunca o verbalizar, confiava em Ferro para colmatar os seus pontos fracos no que tocava à cultura e às relações sociais e internacionais, Ferro, por sua vez, necessitava de, ao abrigo da sua posição no SPN/SNI, concretizar a sua «Política do Espírito».


No entanto, durante e após a II Guerra Mundial, a situação alterou-se, as divergências foram aumentando. Conservando sempre a sua lealdade ao Presidente do Conselho, Ferro sabia o quanto Portugal tinha que mudar. Instalou-se então um conflito velado, silencioso. Ambos se aperceberam de que o trabalho em conjunto, há algum tempo desarticulado, não tinha futuro.


Salazar estava, quiçá, cansado de Ferro, do seu protagonismo e das suas ideias que, claramente, o confundiam. Ferro estava cansado do confronto sistemático com os ministérios, com alguns organismos e, quiçá, com Salazar; pedir o afastamento do SPN/SNI foi a solução encontrada.


Importa pois considerar que o cansaço, que começa a sentir, somado aos seus problemas de saúde crónicos, foram motivos mais que suficientes para que não tenha escondido o desejo de se retirar para outro posto, tendo a sua mulher escrito a Salazar, em Abril de 1947, solicitando uma colocação no estrangeiro para a resolução daquele problema. A resposta de Salazar, sibilina, mas afável, revela que já teria considerado afastar Ferro do cargo, o que também levanta dúvidas acerca das suas reais intenções a este respeito: estaria já determinado a substituir Ferro, ou teria aproveitado agora a circunstância deste (e depois Fernanda de Castro) o terem solicitado?

[José Guilherme Victorino, p.246]


Aparentemente, Salazar acolheu bem a sua decisão mas acreditamos que não lhe perdoou o desejo de sair de Portugal, de o abandonar, a ele, Salazar; maliciosamente, com a sua habitual astúcia, aconselhou-o a partir para Berna de forma a ser mais facilmente transferido para Paris como era seu desejo, facto que nunca viria a acontecer. A realidade é que, embora sem um conflito aberto, Ferro foi exilado e, em 1950, iniciou uma nova vida, longe do seu país, da família e dos amigos, deixando para trás inúmeros projectos por terminar.


No entanto, mesmo à distância, manteve contacto regular com Oliveira Salazar continuando a ensinar e a defender os seus projectos muitos dos quais jamais entendidos pelo estadista, e tentando, ao abrigo do seu novo posto, implementar novas iniciativas na Suíça. Para o conseguir, apercebendo-se que o seu cargo de Ministro na Legação de Portugal não era suficiente, resolveu, estrategicamente, criar em Genebra o «Centro Português de Informações" sobre o qual escreve a Salazar.


1-3-1951, [Berna]

[...]confesso a Vossa Ex.ª que tenho sentido uma certa depressão, nos últimos tempos, por me sentir forçadamente inerte sem os meios de acção suficientes para realizar alguma coisa do que projectava e aproveitar a minha estadia aqui para continuar a ser útil ao meu país e ao meu governo. Tenho feito tudo o que está dentro das minhas possibilidades (até ao extremo limite das minhas possibilidades…) mas muito mais teria realizado se já me tiveram dado os meios que clara e especificamente me foram oferecidos ainda quando o S. Dr. Caeiro da Mata era Ministro dos Negócios Estrangeiro e quando o Sr. Dr. Castro Fernandes era Ministro da Economia. Não me queixo especificamente de ninguém pois todos aqueles aos quais recorri mostraram, com sinceridade, estou certo, a melhor boa vontade de colaborar comigo num legitimo desejo de acção não pessoal mas nacional. Creio mesmo que essa colaboração se virá, um dia, a efectivar, mas a verdade é que já estou aqui há um ano e que só consegui de positivo, no que respeita ao Centro Português de Informações, o subsídio que Vossa Ex.ª autorizou através do Secretariado. Um ano, na minha idade, é muito para estar à espera do que não sei quando virá… [...]

[aqui] também o maior interesse pela Exposição de Arte Popular cujas despesas seriam divididas entre a direcção dos Museus de Genebra e o Secretariado. Parece-me difícil recusar este oferecimento tanto mais que a Suíça pensa organizar, oficialmente, uma exposição em Lisboa com vários aspectos da vida cultural do seu passado e do seu presente, uma exposição – sintaxe (formula que, aliás, lhes dei) completamente à sua custa. Nós temos hoje um Museu de Arte Popular que pode ser considerado um dos mais belos da Europa, talvez o mais belo, como é a opinião de alguns especialistas estrangeiros que o têm visitado. Convém valorizá-lo através de exposições deste género que chamarão a atenção para ele.

[FAQ/01/0548/00125]


O «Centro Português de Informações" cuja direcção entregou a José Augusto do Santos, foi inaugurado a 3 de Outubro de 1951. Este Centro, esboço de uma hipotética futura Casa de Portugal, destinava-se. muito simplisticamente falando, a angariar fundos próprios para poder levar a cabo inúmeras iniciativas culturais e turísticas, muitas delas realizadas no Museu de Arte e História de Genebra. Mesmo assim, os resultados obtidos não foram os esperados: falta de verbas, desencontros com o então director do SNI, José Manuel da Costa.


25-03-951

Meu caro amigo [José Manuel da Costa]

Escrevo-lhe (com lamentável atraso), antes de mais nada, para o felicitar pela sua nomeação. É com o maior prazer, acredite, que o vejo à frente do organismo que pude criar, sob a alta inspiração do Sr. Presidente do Conselho, e do qual, por mais que me esforce, não consigo desprender-me de tal forma se encontra ligado à minha vida e à minha saudade. Bem orientado ou mal orientado, durante estes últimos dezasseis anos, o Secretariado é hoje uma realidade na vida do país como ainda recentemente se provou com a importância reconhecida ao organismo através do justo relevo dado à sua posse. [...] Creia sempre na sincera estima e na sincera admiração, António Ferro.

[FAQ-01-0548-00127]


E assim, sempre em contacto com Salazar, vai correndo o tempo de António Ferro em Berna...


27-2-1953
,[Berna] (carta recebida a 28-3-53)

Senhor Presidente

[...] Compreendo, por exemplo, que Vossa Ex.ª não goste da chamada pintura moderna, ultra avançada. Eu próprio, devo confessar, apesar das aparências, não morro de amores pelo cubismo ou pela pintura abstracta (que desempenharam o seu papel na história da pintura), formas de arte estreitamente ligadas como disse André Chanson, ao desespero do Homem que perdeu, na nossa época onde tudo se perde, a própria noção do seu rosto, da sua expressão. Vi, há alguns meses, em Paris, uma exposição de retratos flamengos que me deslumbrou e que me fez ter pena de que os pintores de hoje não saibam explicar aos vindouros como nós éramos. São os artistas que fixam, afinal, ou devem fixar, a fisionomia e as fisionomias de cada época. Mas penso que cada século, sem esquecer nem desdenhar a herança do passado, deve ter o seu próprio classicismo e o seu estilo.

Se não fosse, por exemplo, essa inquietação que estimulei e semeei, sempre com a alta compreensão de Vossa Ex.ª que me deixava fazer, de quando em quando, certas coisas com que não concordava inteiramente (“os grandes estadistas assinam, às vezes, sem concordar” disse, nas suas memórias, o Príncipe de Bülow), não teríamos obtido, possivelmente, os êxitos que alcançámos nas exposições internacionais e na exposição do Mundo Português. [...] O que é indispensável, evidentemente, é que os artistas não se desnacionalizem, que a sua paleta seja portuguesa, que os seus olhos vejam sempre Portugal. [...]

A situação dos ministros ficará em breve diminuída, aqui, com a aceitação e nomeação de Embaixadores. Até agora, todos os ministros eram iguais visto que a situação do Nuncio e a do embaixador de França não criavam complexos aos restantes chefes de missão, mas nomeado o primeiro Embaixador (e está para breve) todas as nações sul-americanas se precipitaram e os poucos ministros que restarão dificilmente conseguirão impor-se. Não desejo, como sempre, criar-lhe problemas. Mas a vida passa depressa, tão depressa… E há um momento (receio que se aproxime…) em que os próprios sonhos morrem, em que já nem sequer se tem força para desejar, ambicionar seja o que for…

[FAQ/01/0548/00133]


Em 1954, é transferido para a capital italiana, ainda como Ministro de Portugal, e, quase de imediato, no mesmo ano, propõe ao Ministério dos Negócios Estrangeiros a criação de um novo «Centro Português de Informações», desta feita em Roma.


18-9-954
[Roma]

Senhor Presidente

[...] Já estou instalado na casa que aluguei, o andar nobre do Palácio Grillo da Marquesa de Robillant. É uma instalação digna, representativa, aparatosa e que exige certo aparato, o que me faz estar seriamente preocupado com o chamado “custeio da casa”…

A minha preocupação maior, no entanto, é o meu estado de espírito e o meu estado físico. Já fui a três médicos que me afirmam (que nada tenho de orgânico no coração mas uma forte depressão nervosa acompanhada de perturbações circulatórias e de um aumento de tensão que exige certos cuidados. [...]

António Ferro

[FAQ/01/0548/00134]


Em Junho, escreve a Salazar uma carta que viria a ser entregue ao seu filho primogénito três dias depois da sua morte. O envelope estava endereçado a Ex.º Senhor Doutor Oliveira Salazar (para lhe ser entregue em caso de morte ou em estado parecido) Do António Ferro:
 


2-6-1956

Senhor Presidente

Escrevo-lhe esta carta porque ando seriamente preocupado com o meu estado e tenho receio de desaparecer, ou de morrer em vida, sem lhe dizer, pela última vez, quanto lhe fiquei profundamente grato pela glória de o ter servido o melhor que pude e soube, não glória […], espectaculosa, como tantos possam ter pensado, mas glória humilde, intima, aquela que me faz perdoar a mim próprio muitas faltas que certamente cometi. Tudo o que fiz de útil pelo meu país, devo-o a Vossa Ex.ª que me permitiu, até, às vezes, discordando, de realizar o que sonhei quando era novo, que me deu a possibilidade de transformar em acção aquela ânsia poética, aquele desejo de embelezar a vida, que foi sempre a característica fundamental da minha personalidade, que sempre nela existiu de mais eficaz. É certo que as circunstâncias não me permitiram realizar até ao fim, por outros caminhos a obra que empreendi no Secretariado nesse sentido, e no sentido de projectar no mundo um Portugal, precisamente, poetizado e embelezado. Mas não foi culpa de Vossa Ex.ª que sempre me compreendeu e sentiu. Foi culpa não sei de quem nem sei de quê, culpa, talvez, do meu destino se o destino pode ser culpado… Mas basta-me, repito, para morrer com consciência tranquila (só tenho pena de nunca ter encontrado Deus ou que Ele não me tivesse encontrado, se bem que não duvide da sua existência nem da sua clemência) ter sido o mais modesto colaborador da obra de Vossa Ex.ª, de ter contribuído, na medida das minhas possibilidades, para a construção daquele país novo em que os meus filhos e os meus netos serão mais felizes do que eu fui na minha mocidade.

[...] E, por uma vez, permita-me, ao despedir-me, que o abrace comovidamente pensando mais no grande amigo do que no Presidente do Concelho, pensando, sobretudo, no Homem a quem os portugueses devem a reconstrução do seu país e a quem eu devi, especialmente, a reconstrução da minha alma, a completa formação do meu espírito.

[FAQ-01-0548-00073]


O Centro Português de Informações seria inaugurado no dia 10 de Junho de 1956, a poucos meses, mal o sabia Ferro..., da sua morte.


Ainda assim, o legado de António Ferro aqui entendido como precursor de práticas modernas de diplomacia cultural, persiste na forma como tentou articular cultura e política, estética e ideologia, identidade nacional e projecção externa. Os Centros de Informação que idealizou anteciparam modelos posteriores de diplomacia cultural, que viriam a ser consolidados já após o 25 de Abril, em moldes democráticos.

[Carla Ribeiro, pp.81-93]

 1-7-956, [Roma]

Senhor Presidente

Não respondi, há mais tempo, a Vossa Ex.ª porque me sinto cada vez pior, apesar de todos os tratamentos. Ficaria muito grato, a propósito, se Vossa Ex.ª me pudesse dar algumas informações sobre o assunto de que conversámos e diz respeito a uma possível mudança da minha situação. Li nuns jornais portugueses que o problema da Fundação [Calouste Gulbenkian] está a caminho de ser resolvido e que os estatutos deverão estar prontos dentro de um mês. Sem impedir o prosseguimento da minha carreira oficial, conforme Vossa Ex.ª admitiu, seria a solução ideal para mim pois receio não poder viver neste país, por muito mais tempo, sem um agravamento do meu estado que pode vir a ser irremediável. E, infelizmente, não tenho meios para pedir uma longa licença por doença que me permitisse, tratando-me seriamente, aguardar o fim desta crise.

Pedindo desculpa de o aborrecer com os meus problemas de ordem pessoal (confio em Vossa Ex.ª, talvez vaidosamente, como num amigo), creia sempre, Senhor Presidente, na minha profunda e respeitosa dedicação.

[FAQ-01-0548-00074]


De facto, Azeredo Perdigão, presidente da Fundação Gulbenkian havia-o convidado a dirigir uma futura publicação da Fundação. Sobre este assunto, escreve-lhe António Eça de Queiroz:

Lisboa, 10 de Agosto de 1956

[...] Dezoito anos, salvo erro, trabalhei consigo, e como bem sabe, nunca nesse grande espaço de tempo, houve entre nós, um único momento de qualquer desentendimento. Devo-lhe muito, principalmente, amizade e confiança. [...] Vou-lhe agora explicar, caro António Ferro, a razão deste prelúdio: Saio de ter uma longa conversa com o Dr. Azeredo Perdigão. [...] Agora, meu caro Ferro, aqui entramos na parte onde V. pode ser para mim a mais sólida das alavancas e olhe que lhe escrevo a conselho do próprio Azeredo Perdigão. Este, disse-me da grande afeição e amizade que lhe tinha e aconselhou-me em que não perdesse tempo e não deixasse de escrever imediatamente. Em vista disto, eu devo supor que V. está em plena comunicação com o Azeredo Perdigão. Portanto, vou repetir-lhe o que é que ele, amabilíssimo, acaba de dizer-me: Que a Fundação tenciona publicar uma grande revista da mais alta qualidade sem preocupações de preço de venda mas unicamente de expansão. Eu bem sei que V. está no alto posto de Ministro de Portugal mas, o Azeredo Perdigão parece ter grande esperança de que V. aceite a direcção desta importante publicação, e deve ser muito importante pois que se assim não fosse não poderia ser entregue a um diplomata da sua categoria.

O Azeredo Perdigão disse-me mais ou menos que se eu viesse pelo seu braço para o secundar como o secundei no Secretariado que ele me aceitaria com o maior gosto, pois compreende perfeitamente que um homem com o meu nome e com a minha qualidade literária estaria perfeitamente indicado para ser o "braço direito" daquele a quem seria confiada a direcção do empreendimento.

[FAQ-01-0537-00004]


Aceitar esta proposta, acreditamos, poderia ter sido a sua salvação, mas esperou tempo de mais pela concordância do seu "amigo" Salazar e, entretanto, a sua saúde, bem como o seu estado emocional, foi-se deteriorando.


Apesar de Salazar ter telefonado pedindo-lhe que n
ão o fizesseAntónio Ferro foi operado no Hospital de S. José pelo Dr. Augusto d'Esaguy. A cirurgia correu bem. Morreu nove dias depois, às duas da madrugada, de olhos fechados, sem sofrimento, sem um suspiro, sem um estremecimento, na madrugada de 11 de Novembro de 1956. Ao seu lado, estava a sua mulher, com uma enfermeira do hospital.


Salazar esteve presente no velório mas não foi ao enterro.


«A vida sem fé é um túnel sem fim,
mas sem esperança é um corredor às escuras que não leva a parte nenhuma».
[Fernanda de Castro, p.23]


(adaptação revista e aumentada de um ensaio da autora anteriormente publicado

em "Salazar: o Homem e a Sua Obra", Balzac, 2025)


Bibliografia consultada

«Do Palácio Foz à Via dei Portughesi: António Ferro e os bastidores da diplomacia cultural (1950-1956)», de Carla Ribeiro, em "António Ferro, Espírito em Movimento", Fundação António Quadros, 2026.

"Catorze anos de Política do Espírito", de António Ferro. SNI, 1948.

"Memórias (1906-1987)", de Fernanda de Castro. Fundação António Quadros, 2024.

"Propaganda e Turismo no Estado Novo: António Ferro e a revista Panorama (1941-1949)”, de José Guilherme Victorino.

Acervo epistolar da Fundação António Quadros.

 

05  Carta a meu marido, António Ferro,
por Fernanda de Castro


António:
Hesitei muito antes de começar a escrever esta carta. Noites a fio adormeci a pensar: «Escrevo, não escrevo?».


As palavras não adiantam muito e não esqueço aquele dia em que me disseste: «Falas, falas, mas de ti não dizes nada, e ficarias muito surpreendida se eu agora te dissesse que és comunicativa, sincera, mas que, no fundo, és ferozmente secreta.»

Não, António, não ficaria surpreendida porque sei que até certo ponto é verdade, mas se digo pouco, é porque sei pouco, muito pouco de mim. Não digo, orgulhosamente, como Unamuno: —  Eu sou eu e mais ninguém.


Antes digo: Eu sou eu e os outros, outros, alguns que conheço, outros que desconheço inteiramente. Tenho, invisível na testa, uma pinta vermelha. Por debaixo das grosseiras roupas ocidentais, uso colado à pele um sari de imponderável seda que julgo azul pálido. Sinto um desejo imperioso de acariciar o dorso de um tigre. O fado, castiço, corre-me nas veias como um bálsamo e um veneno. E há ainda a lezíria, onde nasceu e se criou a minha avó materna. Estremeço de alegria selvagem, irracional, quando na arena se desenha o magnífico bailado de vida e de morte entre o homem, a fera e o cavalo. Mas ao mesmo tempo sinto um verdadeiro horror, um horror visceral, uma irreprimível revolta, quando o toureiro crava a primeira farpa e uma rosa de sangue, escorre da primeira ferida. Isto sem falar naquele pequeno cofre de segredos que eu tenho, que todos temos, no mais profundo do nosso subconsciente, naquela caixinha de surpresas onde se amontoam, sem ordem, sem coerência, reminiscências, miragens, sonhos nunca sonhados, intuições, atavismos, recalques e muitas outras coisas sem nome.


Tu, como Unamuno, que tão bem conheceste, dizias como ele: "eu sou eu e mais ninguém", embora fosses a mais generosa das pessoas. E dizia-lo com uma certa petulância, um certo "convencimento". Lembras-te do dia em que nos vimos pela primeira vez? Foi na Liga Naval, naquela tarde em que fizeste uma conferência sobre a Colette. Gostei, gostei até muito da conferência, mas gostei menos da maneira um pouco arrogante como me perguntaste, quando nos apresentaram — "Então? Gostou?"

Irritou-me essa pergunta que era mais uma afirmação do que uma pergunta e respondi então, com uma falsa, mas bem imitada indiferença: — "Da conferência? Não desgostei. Adoro a Colette."


Tu ficaste verdadeiramente interdito e sempre pensei que foi nesse preciso instante que empreendeste a minha "conquista". Quando, finalmente, algumas semanas mais tarde, eu te disse "que sim", à velha e bem-comportada maneira desse tempo, confessaste-me teres jurado a ti mesmo que terias a tua desforra e que seria com as tuas próprias armas, a tal petulância, a arrogância e esse "convencimento", que acabarias por conseguir a vitória.

Mas aqui, meu Amigo, enganaste-te redondamente: — o que me convenceu, não foi nada disso, foi, entre muitas outras, uma carta tão liricamente lírica, que tinha por força que ser piegas. Mas o estranho é que não era, palavra que não era. Sonharas comigo e viras-me envolta numa nuvem de borboletas brancas que, ao pousarem sobre mim — se transformaram em pétalas de flores de amendoeira, arrastadas pelo vento. E concluías: — “Era tudo tão branco, tão perfumado, era tão gracioso o voo das borboletas que o sonho me pareceu de bom agoiro."

A estas cartas, seguiram-se muitas que, pouco a pouco, foram mudando de tom. O lirismo foi desaparecendo como pólen ao vento, mas foi ficando qualquer coisa de muito mais sério, de muito mais grave. Compreendemos ambos que tínhamos os mesmos projectos, as mesmas ambições que não eram de ordem material, que ambos queríamos uma vida estável, mas não parada. Queríamos viajar, fazer coisas, escrever livros, ter filhos e fazer deles pessoas de bem. E, um belo dia, descobrimos ambos que aquilo que começara por um simples namoro e que, para nossa vergonha ainda foi algum tempo namoro de janela, se tinha transformado sem que déssemos por isso, num sentimento forte, sincero, duradoiro. (A propósito de namoro, lembro-me, sempre com vontade de rir, que tu, encostado a um maldito candeeiro, mesmo defronte da minha janela, "maldizias" o meu pai que não te deixava subir porque eu ainda não fora "pedida". O que nos valia é que as duas manas do rés-do-chão eram bisbilhoteiras, mas, graças a Deus, completamente surdas.

Casámos. Casámos por procuração. Tu estavas no Brasil à minha espera e foi o Gago Coutinho, que acabava de ser apoteoticamente recebido no Rio de Janeiro, uma das testemunhas dessa procuração. Quanto a mim, casei melancolicamente com o meu cunhado Dr. Augusto Cunha, na Igreja de Santa Isabel. Dias depois embarquei no Arlanza. E agora vou dizer-te um segredo que, por falta de coragem, sempre te escondi: — na manhã em que cheguei ao Rio os meus nervos estavam de tal forma destemperados que, durante um segundo, um instante, me passou esta ideia maluca pela cabeça: "E se eu agora chego lá e já não o conheço?" É claro que te reconheci imediatamente e fiz troça de mim mesma, sozinha, encostada à amurada do barco. Lá estavas tu no cais rodeado por vários amigos e por uma senhora com um grande ramo de flores na mão que me era com certeza destinado. Nesse momento, posso jurar-te que o teu coração não batia mais do que o meu e que, quando nos abraçámos, sabíamos ambos que era para sempre.

E foi. Zangas, amuos, discussões, desencontros? Com certeza. Muitos e variados. Não te esqueças, como eu te disse tantas vezes, que o azar tinha feito de ti um "leão" e de mim um "sagitário", dois signos que dizem ser os mais fortes. Tínhamos, contudo, estilos diferentes. Eu zangava-me, tu amuavas. E o mais chato é que esses amuos chegavam a durar uma semana inteira. E quando enfim o amuo passava e eu te perguntava: — "Afinal o que foi? O que foi que que eu fiz desta vez?" Tu então rias, as tuas sobrancelhas levantavam-se, os teus olhos riam também e dizias, com perfeita, absoluta sinceridade: — "Já não me lembro!''


E assim os anos foram passando, assim fomos cumprindo os nossos destinos: viajámos, escrevemos, pensámos, convivemos com os nossos amigos, criamos os nossos filhos. Em tudo o que fizemos, excepto quando se tratava dos nossos livros, nos ajudámos mutuamente. Tu erguendo a tua grande obra cultural, eu escrevendo os meus livros — e ambos procurando servir o melhor possível este nosso país. Quero ainda dizer-te que sempre te fui muito grata porque nunca me cortaste as asas. A Poesia viveu sempre connosco.


O nosso objectivo nunca foi o dinheiro e, talvez por isso, sempre nos "safámos" pela tangente, nos tempos difíceis em que fizemos a nossa casa livro a livro, cadeira a cadeira, cortina a cortina, sardinheira a sardinheira nos vasos das varandas.


Lembras-te de me ouvir dizer, milhares de vezes: "Se um dia entrarem cá em casa e não virem uma flor, tenham pena de mim?" É por isso que, apesar de tudo, continuo a ter, no meu quarto, no vão de uma janela, duas prateleiras em que se apertam os vasos trazidos pelos Amigos mais queridos: uma begónia, um ciclamen, um jacinto, um antúrio. Só não tenho uma saudade porque essa não está à janela. Está dentro de mim, no meu coração.


Já vai longa esta carta que não diz, no entanto, tudo o que sinto. Para quê escrever mais? Tu já sabes tudo, sobretudo o que os outros não sabem.
Adeus. Ou antes até à vista, se Deus quiser.

 

Em "Cartas para Além do Tempo". Europress, 1990 (pp.361-364) 
 

06  António Ferro em tempo de férias na Quinta do Malha-Pão,
por Fernanda de Castro


Malha-Pão, aquela espécie de celeiro com os vários compartimentos que levei um mês a limpar, a desembaraçar de ratos e de teias de aranha, e depois a encher de flores silvestres, de cortinas de cassa, de móveis comprados na Feira da Ladra ou na Rua de São Bento. Ali vivi alguns meses com os meus filhos – o António convalescia então duma pleurisia que nos deu muitos cuidados –, e tudo valia a pena ao vê--los à solta, na quinta, bonitos, corados, famintos, doidos de alegria pelos múltiplos segredos do Malha-Pão, pelas fascinantes descobertas diárias.

         

                  Mãe, há uma caverna.

                   E uma gruta!

                   E uma ilha!

                   E um toiro!


Ao fim de poucos meses, porém, passado o susto da pleurisia, tive de abandonar o velho celeiro porque o António pai, o António marido, não conseguiu nunca entender-se com o balde, a banheira redonda de zinco da nossa rudimentar casa de banho: logo num dos primeiros dias escor­regou ao sair do tub, feriu um tornozelo, encharcou tudo, toalhas, roupas, sapatos, e declarou que iria ver-nos todos os domingos, sim, Senhor, mas que nunca mais se arriscaria a percalços do mesmo género. E assim foi: aparecia ao domingo, carregado de amigos, de presentes, de guloseimas, mas, depois do jantar, regressava à Calçada dos Caetanos, desembaraçado de remorsos até ao domingo seguinte. [...] Logo que o António se refez completamente dos malefícios da pleurisia, regressei a Lisboa, não sem uma certa melancolia, uma saudade um tanto mórbida dos ratos, das teias de aranha, do tub e dos soalhos carunchosos.

[em "Memórias (1906-1987)",

Fundação António Quadros, 2024. pp.67-68) 
 

07 — Livraria António Quadros
Obra em Promoção até 14 de Setembro de 2026


Autoria: António Ferro

Título: Colette, Colette/Willy, Colette. Conferência realizada na Societé Amicale Franco-Portugaise, no dia 6 de Novembro de 1920.

Obra dedicada: "A Colette de Jouvenel - obra prima de Colette".

Capa: António Soares.

Idioma: Português.

Edição — Lisboa / Rio de Janeiro: H. Antunes Editores, 1921.

 

Encomendas: geral.faq@gmail.com 

PVP: 24,00 (até 14 de Setembro)

 
 
     
 
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