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Newsletter N.º 235 / 14 de Setembro de 2026
Direcção Mafalda Ferro Edição Fundação António Quadros

ÍNDICE

01 – "Os painéis de Almada Negreiros" (com um 'empurrãozinho' de António Ferro), por CNC [Guilherme d'Oliveira Martins]

02 – António Ferro e Miguel de Unamuno: que relação?, por Pedro Miguel Gonçalves

03 – Miguel de Unamuno entrevistado por António Ferro, por Mafalda Ferro

04 – Lembrando Tarsila do Amaral (140 anos depois do seu nascimento) e a sua amizade com Fernanda de Castro, por Mafalda Ferro

05 – Eugénia Lima (1926-2014): De miúda de Castelo Branco a Rainha do Acordeão, por António Coito

06 – Que livros trago comigo? Divulgação

07 – Livraria António Quadros, Obra em Promoção até 14 de Outubro de 2026: "Estados Unidos da Saudade", de António Ferro.

 

EDITORIAL 


Hoje, o destaque da Fundação António Quadros vai para António Ferro, quase setenta anos depois da sua morte a 11 de Novembro próximo, dia em que a sua obra cai em domínio público, e também para Miguel de Unamuno que morreu a 31 de Dezembro de 1936, há 90 anos; incidindo na relação de amizade, embora revestida de um certo formalismo e de ocasionais opiniões discordantes, que entre ambos se estabeleceu.


Destacamos também duas grandes mulheres: Tarsila do Amaral nascida a 1 de Setembro de 1886, há 140 anos, lembrando uma das épocas em que privou com Fernanda de Castro e a retratou; e a grande Eugénia Lima, no ano do centenário de seu nascimento, cujo percurso de vida devia ser mais conhecido de forma a inspirar todas as mulheres, não só as portuguesas, mas estas em especial. Naascida em Castelo Branco, Rio Maior foi, não obstante, a sua cidade de eleição e descanso eterno. A Fundação António Quadros pretende, em 2027, realizar uma grande exposição que ilustre o belíssimo texto de António Coito que hoje se publica.


Lembramos que se encontra ainda patente na Fundação António Quadros, espaço da Biblioteca Municipal de Rio Maior, até 26 de Setembro a exposição «Passeando na Praia» que mostra parte de uma colecção de conchas, vieiras, búzios, corais e até um cavalo marinho, enquadrada por elementos artísticos, iconográficos e bibliográficos e por textos de Fernanda de Castro, sobre essa mesma colecção.


Numa época não muito longínqua, era habitual encontrar-se nas praias portuguesas  junto às costas, conchas e búzios de inúmeros tamanhos, feitios e tonalidades com que as crianças construíam colares ou castelos e outras figuras de areia.


Como, hoje, tal já não acontece, decidimos, mostrar parte de uma colecção única, pertencente hoje à Fundação António Quadros, reunida em tempos idos por Fernanda de Castro e acrescentada pela sua neta Mafalda Ferro, durante longos passeios pela praias algarvias ou por outras.


Tenho grande carinho por estas conchas, duas ou três centenas, e, com a ajuda de alguns amigos e de excelentes livros que a Jacqueline, amiga perfeita, me tem mandado de Paris e de Genebra, tenho-as, ou por outra, tinha-as classificadas, com uma pequena, muito pequena margem de engano.

Fernanda de Castro, 1987

 

Apresentamos um novo Clube de Leitura em Rio Maior «Que Livros trago comigo?». Podemos a estar a lê-los. a recordá-los ou a pensá-los. Já os lemos ou apenas ouvimos falar. Não é preciso decorar mas, será que se inspiraram em "Fahrenheit 451", romance de Ray Bradbury e um dos meus livros preferidos?

Se viver perto, participe.

 
01 — "Os painéis de Almada Negreiros" (com uma 'ajudinha' de António Ferro),
por CNC [Guilherme d'Oliveira Martins]


O Centro Nacional de Cultura (CNC) publicou recentemente nas redes sociais alguns textos inseridos na rúbrica «Nau Catrineta» dos quais aqui publicamos dois, lembrando António Ferro, quase setenta anos depois da sua morte:


Funâmbulos e folgazões... (Folhetim de Verão – Capítulo VIII)

Esta história conta-se em poucas palavras. Como já dissemos, Almada Negreiros abraçou com mãos ambas o projecto de realizar os painéis das duas Gares Marítimas. O espírito que presidiu aos dois casos era o mesmo: homenagear o povo português e a sua cultura genuína.

Houve, por certo, uma conversa longa com António Ferro, e inicialmente Duarte Pacheco falou de um projecto grandioso que representasse Portugal. Não houve muitos pormenores e Almada compreendeu plenamente o que se pretendia. Estava para trás a Exposição do Mundo Português (1940) e o tempo era claramente outro, por várias razões. No primeiro caso, do Cais de Alcântara, estava-se em plena guerra, o ambiente geral era pesado, prevalecem os mitos e por isso o grande tema é a “Nau Catrineta”, começando nas origens da nacionalidade pelo primeiro dos Almirantes da Marinha Portuguesa – D. Fuas Roupinho na Nazaré. O que estava em causa? Não uma glorificação, mas a compreensão do motivo por que o mar atrai os portugueses, logo desde as origens da nacionalidade e antes dos séculos camonianos. Almada sentiu-se à vontade na relação com o mito e na compreensão não de uma história idílica, mas da interpretação de uma Tragédia. Importava conhecer a História Trágico-Marítima, possível em 1940, quando a guerra trocou as voltas às comemorações centenárias. Mas o pintor estava claramente num outro espírito, entre o cubismo e a reflexão social de Portinari. Havia, no fundo, que pintar a outra face do drama da Nau Catrineta. A Europa saíra e as suas raízes, mas sobretudo os seus dramas. Nada melhor do que ir à realidade da história, representar o sacrifício e a provação, o drama dos marinheiros que chegam a propor comer os antigos companheiros. Não havia braços ao alto ou glórias irreais, mas o drama real, o demónio a querer comprar a alma do Capitão General e este a resistir, como está escrito em dois locais fidedignos: uma canção popular transmitida de boca em boca e a história trágica de desespero pouco conhecida, complemento natural da aventura dos mares. Talvez ficasse a dúvida sobre se a interpretação era a melhor. Mas foi a que ficou, sem qualquer ilusão, feita de lirismo e de angústia. Todos esses ingredientes estão lá, faltaria talvez o império, as velas enfunadas, mas havia marinheiros e a relação difícil com a partida e a chegada. Entretanto, a guerra termina. Havia que fazer os novos painéis na outra Gare. Almada Negreiros não deixa de pensar e as ideias também fluem. O espírito do tempo é outro. Duarte Pacheco ainda tem na memória os ecos de 1940. Talvez pudesse haver agora a mitificação que não tinha sido devastada da guerra. Havia os dramas humanos da reconstrução. Havia fome e injustiças, havia racionamento, mas a cidade era um lugar de novos encontros e novos problemas. O riso trágico já não é o da tragédia marítima, mas dos saltimbancos que chegam e se divertem, mas dos recém-chegados que não têm o dinheiro que lhes faz falta. Almada está atento ao que se passa na Europa, em Paris, no mundo. E abre um novo capítulo nas temáticas. Chegam, porém, aos ouvidos dos encomendantes que agora a temática dos painéis está muito longe da História celebrada. Em vez de velas e dos símbolos heroicos, há funâmbulos, cenas de circo e peixeiras. Salazar dá uma palavra a Ferro, para que limite o pendor crítico de seu amigo Almada. Ferro sabe que isso é impossível e não deseja um conflito…


A Felicidade do artista ( Folhetim de Verão – Capítulo IX)

Esta história não se ficaria por ali. António Ferro não teve dúvidas sobre que a melhor solução era a de seguir as audácias de Almada Negreiros. Havia que compreender os novos tempos e as novas tendências. Almada não estava só, e a corrente modernista estava em movimento.

A revista “Presença” não era conformista e abria em vários sentidos. Entretanto, a perspectiva dos grandes cruzeiros anunciada nos anos trinta não se confirma. O pós-guerra é marcado por sacrifícios e austeridade e o ambiente artístico nada tem a ver com épicas ressonâncias. Almada Negreiros é desde o início um transgressor, ávido de experiências novas. Duarte Pacheco não esconde críticas ao que designa como “mamarrachos”. E se as pinturas de Alcântara são passáveis, na apreciação do todo poderoso Ministro da Obras Públicas, as que se anunciam na Rocha do Conde de Óbidos estão para além dos limites. O país representado pelo modernismo com realismo social a mais não servia a política cultural vigente. Agora a perspectiva é colocada nos que sofrem, no drama dos que têm de partir para fugir à miséria, nos saltimbancos que pedem esmola. Nada idealizado, tudo bem real. Perante um cenário em que os cruzeiros transatlânticos não estão na ordem do dia, equaciona-se a possibilidade de destruir os painéis, já que as gares não vão ser salas de visitas para visitantes estrangeiros e anunciam-se os voos aéreos intercontinentais. Ouvidos sobre a polémica o director do Museu Nacional de Arte Antiga, João Couto, vai ser perentório. Aquela obra era o melhor cartão de visita que Lisboa podia ter num ambicioso e moderno Cais da Europa. António Ferro estava de acordo, como bem sabemos. Entretanto, o desaparecimento trágico de Duarte Pacheco, em Novembro de 1943, deixou o tema para as calendas gregas. Acontece que Almada Negreiros (e Ferro sabia-o) dizia que “nunca tinha feito nada de que mais se orgulhasse” – considerando-a como a obra mais sua. E como não se considerava artista do regime, apesar das aproximações, a ligação ao Secretariado da Propaganda Nacional não lhe tirava margem de manobra perante os artistas inconformistas. Além disso, tinha família para sustentar, não tinha outro empregador e tinha prestígio suficiente para ser respeitado. O tempo passado viria a confirmar plenamente o percurso autónomo do pintor sem cedências de qualidade duvidosa. António Ferro contava com o seu contributo para não perder uma aura de progresso e modernidade. E para que não houvesse dúvidas, o prestigiado director de Arte Antiga veio legitimar o valor cultural e artístico dos Painéis. Em vez de seguir uma linha previsível e menos interessante, como hoje se reconhece, os Painéis das Gares Marítimas completavam-se em coerência com as novas tendências culturais e artísticas. Pode dizer-se que estamos perante o capítulo final da orientação renovadora da “Política do Espírito”. As novas gerações dos anos cinquenta serão diferentes. E como salientará José-Augusto França há uma conjugação de factores a marcar o novo tempo. A partida de António Ferro e a chegada da Fundação Gulbenkian. Azeredo Perdigão (homem do Orpheu e da Seara Nova) gerirá magistralmente a transição, não sem dificuldades, mas com sabedoria. E Almada Negreiros terá aí um reconhecimento, não só ao executar por encomenda o novo retrato de Fernando Pessoa, sob a inspiração do efeito de espelho dos Painéis de S. Vicente, mas também ao fazer para a Gulbenkian a sua obra final – sob o título “Começar”.

Nota  [CNC]: Os painéis da Gare Marítima de Alcântara incluem dois trípticos e duas composições isoladas (inauguradas em 1943) e os da Gare Marítima da Rocha Conde d’Óbidos reunem seis painéis (inaugurados em 1949).

 
02 — António Ferro e Miguel de Unamuno: que relação?,
por Pedro Miguel Gonçalves


Numa altura em que acabámos de celebrar o aniversário do nascimento de António Ferro, em Agosto, chegados a Setembro podemos também celebrar o nascimento de Miguel de Unamuno. Aproveitamos a proximidade das datas como pretexto para lançar um olhar breve sobre a relação entre estes dois homens das Artes e das Letras. Terá existido algum tipo de relação?


1.

A oportunidade de encontro entre os dois homens foi relativamente curta e se não fosse a iniciativa de António Ferro, provavelmente tal encontro não teria acontecido de todo e não estaríamos agora a evocar essa parte interessante da história da cultura em Portugal.

Note-se que António Ferro atingiu o ponto alto da carreira, e da celebridade, nos anos 30, vendo o seu estatuto ainda mais reforçado a partir do momento que é convidado para liderar o Secretariado de Propaganda Nacional (SPN), passando a actuar como uma espécie de Ministro da Cultura avant la letre, dada a criatividade e visão com que exerceu a acção política no campo da cultura. Bom, nos anos 30 é precisamente o momento do ocaso de Unamuno, jubilando-se ao fazer os 70 anos (1934) e tornando-se Reitor Vitalício da Universidade de Salamanca, acabaria por falecer tragicamente em Dezembro de 1936. Se Miguel de Unamuno faleceu em 1936 e António Ferro só ascendeu à sua condição de director do SPN em 1933, terão tido a oportunidade de um encontro como figuras cimeiras dos respectivos países? A margem de oportunidade histórica é muito curta.


O primeiro encontro deu-se numa relação entre entrevistador e entrevistado. Antes de António Ferro ter um currículo como político e como gestor cultural, a sua função primeira era o jornalismo e foi na condição de jornalista que conseguiu aproximar-se pela primeira vez de Unamuno. António Ferro deslocou-se de propósito a Salamanca para se encontrar com o eminente professor e realizar a entrevista que foi depois publicada no Diário de Notícias, e, mais tarde, ainda incluída num livro. Depois de livros em que se projectava um ar cosmopolita do jornalista, como Viagem à Volta das Ditaduras (1927), onde se reuniram entrevistas a figuras internacionais como Garibaldi, Mussolini, Primo de Rivera ou Kemal Ataturk; ou o livro Praça de Concórdia (1929), onde se reuniram entrevistas a personalidades francesas, como Cocteau, Foch, Pétain, Clémenceau, Poincaré ou Citroen; seguia-se depois a publicação do livro Prefácio da República Espanhola (1933), onde ganhavam lugar entrevistas a notáveis espanhóis como Ortega y Gasset, Valle-Inclán, Marcelino Domingo, Sánchez Guerra e, claro, Miguel de Unamuno.


Só esse episódio de sair de Lisboa e viajar até Salamanca para entrevistar o grande Miguel de Unamuno (1930), e ter estado dentro do seu gabinete reitoral a entrevistar a figura, dava uma história que merecia ser investigada e escrita com primor.


Consta que essa entrevista que António Ferro conduziu, gerou em Portugal alguma polémica, chegando a envolver o próprio Fernando Pessoa. Unamuno mostrava-se contrário a qualquer ideia de fragmentação da Península Ibérica, segundo as suas concepções de iberismo unamuniano, pelo que nenhuma das nações se deveria separar de Castela, nem Catalunha, nem Valência, nem País Basco, e o mesmo seria para Portugal. Deveriam estar todos reunidos numa “República Federal Peninsular”. Mas Ferro argumentava que Portugal tinha uma língua própria e uma cultura distinta, o que não foi suficiente para demover o distinto professor.


Note-se que que este primeiro encontro aconteceu quando Ferro era ainda um mero jornalista. É certo que era um jornalista bem conhecido, mas ainda assim um jornalista como muitos outros. A relação entre as duas figuras era assimétrica. Só depois de 1931, com o sucesso que foi a organização do Congresso dos Críticos por parte de Ferro, lançando o nome de Portugal por todos os jornais europeus (70 convidados de 15 países diferentes) é que o estatuto de Ferro mudou. Começaram a vê-lo com outros olhos. Segundo Maria José de Lencastre foi o sucesso internacional do congresso que funcionou como um verdadeiro trampolim da carreira política de Ferro: “serviu como rampa de lançamento para a carreira de António Ferro” (Lencastre, 2015, p.34). O convite para a direcção do Secretariado de Propaganda Nacional viria a seguir.


Foi nesse Congresso dos Críticos de 1931 que esteve presente Luigi Pirandello como Convidado de Honra, outras das iniciativas criativas de Ferro. O italiano ainda não havia recebido o Prémio Nobel da Literatura, mas já era uma das figuras maiores da literatura mundial. Um dos pontos altos do congresso foi a estreia mundial de uma peça do italiano em língua portuguesa e com o título Um Sonho (mas talvez não).


2.

Em 1935, estando já na direcção do Secretariado Propaganda Nacional, estando então empenhado na internacionalização das Festas da Cidade de Lisboa, António Ferro resolveu convidar Miguel de Unamuno para vir a Portugal inserido num grupo de escritores famosos. Trata-se de uma das suas primeiras iniciativas como Director do SPN, e, talvez, uma das mais importantes. A esse grupo de letrados estrangeiros que passeou por Portugal, numa operação de charme e de propaganda, convencionou-se chamar de Embaixada Cultural de 1935.

Visita de intelectuais estrangeiros a Portugal. Reconhece-se da esquerda para a direita: António Eça de Queiroz, Gabriela Mistral, Jules Romains, Guilherme Pereira de Carvalho (de boina), Maurice Maeterlinck, Fernand Gregh e Miguel de Unamuno. Universidade de Coimbra, 1935.
 [
PT/FAQ/AFC/06/0002/01455]

Quem eram, afinal, os membros desta embaixada cultural? 
Para o responder vou citar um paragrafo de um artigo publicado já este ano na Revista de Histórias das Ideias da FLUC:

“Eram quase todos escritores, uns consagrados, outros apenas pretendentes, outros eram críticos, filósofos ou humoristas, mas todos bem posicionados entre as elites dos respectivos países. Rastreando a imprensa da época, conseguimos identificar pelo menos 19 personalidades, entre franceses, belgas, espanhóis e alemães. Num grupo francófono podemos incluir François Mauriac, Georges Duhamel, Jacques Maritain, Jules Romains e ainda Maurice Maeterlinck. Num grupo hispânico podemos incluir Unamuno, Mistral, Ramiro de Maeztu, Marquês de Quintanar e Fernández Flórez. Entre os alemães, Ernst Robert Curtius e Hans Friedrich Blunck. E depois havia outras figuras, numa segunda ou terceira linha de importância, sobretudo críticos e jornalistas, como Jérôme Tharaud ou Pierre Daye, cujos nomes aparecem, em certas ocasiões, mal transcritos pelos jornalistas portugueses, por exemplo, «Frederic Gregh» (Fernand Gregh), «Emílio Vinllernges» (Émile Vuillermoz), «Conde Ornesson» (Wladimir d’Ormesson) ou «Paul Orekoert» (Paul Crokaert). E ainda o brasileiro Ribeiro Couto.” (Gon, 2026, p.68)

Aquele encontro de vultos literários que contou com Unamuno acabou por ocupar um lugar único no panorama da história da cultura em Portugal. Tanto quanto sabemos, nunca antes, nem nunca depois, se voltaram a juntar tantos Prémio Nobel da Literatura no mesmo lugar: estamos a falar de Maurice Maeterlinck, Prémio Nobel da Literatura em 1911, ou seja, já detentor do Prémio à data da visita; a poetisa chilena Gabriela Mistral, Prémio Nobel da Literatura em 1945; o romancista François Mauriac agraciado com o prémio em 1952; e, ao lado destes, Miguel de Unamuno, que atingira já, por direito próprio, um estatuto bem superior a qualquer prémio Nobel.

Como é natural, uma elevada concentração de figuras de proa deu azado a alguma tensão e atrito entre egos. Consta, de facto, que António Ferro e Fernanda de Castro tiveram bastante trabalho para satisfazer as necessidades destes convidados especiais e resolver diplomaticamente os conflitos que despontavam. Noutro texto recente, publicado no Boletim da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, aborda-se essa questão:


“A única figura ombreando com Maeterlinck seria Unamuno. Havia na embaixada cultural outras figuras relevantes, como Mauriac, Mistral, Maritain, Maeztu ou Curtius, mas aqueles dois eram as grandes vedetas, os responsáveis pela maior tensão que se gerava dentro do grupo, pois “quando os ‘embaixadores’ se juntavam, conta-nos Maciel, Unamuno manifestava certa ‘ciumeira’ em relação ao famigerado autor da Vida das Abelhas, sempre assediado, sobretudo pelas raparigas bonitas...” (Medina, 1977, p.22). Fernanda de Castro confirma nas suas Memórias que havia de facto tensões dentro da embaixada cultural. Explica que foram várias as circunstâncias em que houve melindres, “foi realmente complicado e por vezes dificílimo o protocolo da recepção de tantas personalidades, de tantas figuras de primeiro plano, todas com o seu orgulho, as suas susceptibilidades, as suas humanas vaidades” (Castro, 1986, p.270). A equipa do SPN era pequena e foi difícil contentar a todos: “foi uma quinzena extraordinária mas difícil, inolvidável mas exaustiva” (Castro, 1986, p.269).” (Gon, 2025, p.393)

A estadia de Unamuno em 1935 foi longa e teve dois períodos distintos. Uma primeira parte centrada em Lisboa – Estoril e outra parte em digressão pelo país. Se bem que se relacionasse com todos os elementos da embaixada, o certo é que tinha as suas preferências e passava muito tempo junto da chilena Gabriela Mistral. Na verdade passaram tanto tempo juntos que Unamuno se tornou para Mistral uma referência e uma influência determinantes.

“Quando se organizou em caravana a comitiva dos ilustres para a deslocação ao norte de Portugal, passando por lugares icónicos da história e do turismo português, como Nazaré, Alcobaça, Batalha, Coimbra, Bussaco, Curia, Porto, Guimarães e Viana do Castelo, Mistral e Unamuno partilharam o mesmo carro. No relato que Artur Maciel fez desse episódio a João Medina afirma-se que «ao distribuir os convivas pelos carros na ida ao Norte, os organizadores juntaram, por exemplo, Unamuno com Fernández Flórez e com a poetisa chilena Gabriela Mistral» (Medina 1977: 22). Unamuno e Mistral passaram, por isso, longas horas sentados juntos no mesmo carro.” (Gon, 2026, p.73)

A visita que Unamuno fez a Portugal em 1935 terá sido muito importante, mas não foi a única. Unamuno veio muitas vezes a Portugal. Aliás, poderá ser o intelectual estrangeiro que mais vezes visitou Portugal, estando hoje documentadas, em estudos recentes, dezasseis visitas, umas mais demoradas que outras. A de 1935 foi longa, a de 1914 também foi longa (férias na Figueira da Foz e Coimbra, e trava conhecimento com Eugénio de Castro), bem como a de 1910 (férias em Espinho e trava conhecimento com Manuel Laranjeira).


Uma pincelada necessariamente breve apenas para lembrar que houve encontros entre António Ferro e Miguel de Unamuno que foram marcantes na vida de um e de outro.



Referências Bibliográficas:

Gon, Pedro Miguel (2025). 90 Anos da Primeira Visita de Maurice Maeterlinck a Portugal: de Eugénio de Castro a António Ferro. In Boletim da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, Vol. 55, pp.379-409, Imprensa da Universidade de Coimbra. https://doi.org/10.14195/2184-7681_55_14

Gon, Pedro Miguel (2026). Errância de Gabriela Mistral na Europa: o período português (2026). In Revista de História das Ideias, Vol. 44, pp.61-87. https://doi.org/10.14195/2183-8925_44

Lencastre, Maria José (2015). Com um sonho na bagagem – Uma viagem de Pirandello a Portugal, D.Quixote. ISBN: 978-972-20-4709-8

 

03 — Miguel de Unamuno entrevistado por António Ferro,
por Mafalda Ferro

 

Miguel de Unamuno, filósofo, escritor, poeta espanhol nasceu a 29 de Setembro de 1864, morreu no dia 31 de Dezembro de 1936, um ano depois da sua última vinda a Portugal. Pensamos que não voltou a estar com António Ferro.

Lembramo-lo hoje, 90 anos depois.

O confronto de Unamuno com Afonso XIII de Espanha valeu-lhe anos de exílio (1926-1930) nas Ilhas Canárias e posteriormente em França. António Ferro contactou-o pouco depois do seu regresso, solicitando-lhe uma entrevista.


Miguel de Unamuno foi uma dos muitas personalidades entrevistadas por Ferro para o «Diário de Notícias» Essa entrevista foi publicada, conforme referido no artigo anterior, por Pedro Miguel Gonçalves, não só nesse jornal diário como também, em 1933, na sua obra "Prefácio da Republica Espanhola" num capítulo que intitulou «D. Miguel de Unamuno, Senhor Feudal de Salamanca» (pp.155/180).


António Ferro encontrou-se com Unamuno na sua casa em Salamanca e, de acordo com o seu estilo habitual em quase todas as entrevistas de sua autoria, dá-nos a conhecer o entrevistado e o seu pensamento, para além das palavras faladas, e também os seus hábitos e forma de estar, descrevendo o que o seu olhar atento vai registando e interpretando:


Através dos reposteiros mal fechados (quasi não há portas nesta casa...) adivinham-se os quartos, as camas altas, acasteladas. [...] D. Miguel leva-me para o seu escritório, para o seu pano de fundo. E aí só manda D. Miguel e aí tudo se conserva como na hora do exílio, como na hora da abalada. O escritório de Unamuno é uma projecção da sua cabeça, da sua alma... Estantes em todas as paredes, estantes simples, esqueléticas, o ritmo de Castela. E livros, livros por toda a parte, nas prateleiras, no chão, nas mesas, nos vãos das janelas. Só há livros no escritório de Unamuno e, no entanto, o seu escritório tem uma expressão inconfundível, pessoalíssima, única. Sente-se que não podias ser o escritório de mais ninguém, sente-se que está ali a verdadeira moldura do grande pensador do "Sentimento trágico da vida", do grande romancista da "Niebla" e do grande espanhol da "Vida de D. Quixote e de Sancho". E é neste fundo, no verdadeiro fundo, que eu lhe tiro o retrato. 
[...] D. Miguel de Unamuno leva-me, antes de mais nada, à sua capelinha portuguesa, ao canto do escritório, onde guarda os nossos livros. FERRO (pp.157-158-159)

Grande apaixonado pela cultura portuguesa, Unamuno guardava na sua biblioteca pessoal centenas de obras de autores portugueses dos quais António Ferro destaca Oliveira Martins, Antero de Quental, Guerra Junqueiro, Alexandre Herculano, Eugénio de Castro, Eça de Queiroz, Fialho, Camilo, Sá-Carneiro, Raul Brandão e até o seu "Missal de Trovas escrito aos 18 anos com Augusto Cunha.


Un vasco arraigado hace cerca de quarenta años en una región castellana fronteiriza de Portugal ha aprendido a conecer  - y conocer es amar - a este y a respeitar hasta ciertas susceptibilidades que estima, y lo dice francamente algo
[...]. Y espera que el conocimiento mutuo, que es la más íntima hermandad, haga un dia algo más grande que nosotros. Miguel de Unamuno. Salamanca, 1 III 1930. [Texto enviado a António Ferro PT/FAQ/AFC/01/0464/00001]

(Um basco, radicado há cerca de quarenta anos numa região castelhana fronteiriça com Portugal, aprendeu a conhecer — e conhecer é amar — esta terra e a respeitar até certas susceptibilidades que estima e, francamente, considera [...]. E espera que o conhecimento mútuo, que é a mais íntima irmandade, faça um dia algo maior do que nós. Miguel de Unamuno. Salamanca, 1 de Março de 1930) - tradução da autora.

 

Já em Lisboa, António Ferro escreve a Miguel de Unamuno, no âmbito da preparação das “Festas da Cidade de Lisboa” a realizar em Junho desse ano. Estas cartas foram publicadas inicialmente no Epistolário Português de Unamuno (Dias, pp.140-141):

 

S.R.

PRESIDÉNCIA DO CONSELSO

SECRETARIADO DA PROPAGANDA NACIONAL

N.º 2321/E.F.

 

Señor D. Miguel Unamuno

SALAMANCA


Muy Señor mio:

Tenemos verdadero placer en manifestar a V. que las Fiestas de la Ciudad se celebrarán en el próximo mes de Julio.  Con el fin de darles la mayor brillantez posible, el Ayuntamiento de Lisboa ha empezado yá los preparativos.

Deseando que algunos eminentes escritores de otros países, en número restricto, tomen parte en estos festejos,  el Secretariado de la Propaganda Nacional (que es un organismo oficial al servicio del Estado), incluyendo a V. en la pleyáde de los mayores escritores de nuestra época, tiene el honor de, gustosamente, convidar V. a visitar Lisboa en tal propicia ocasión.

Aprovechando esta conyuntura, tendrá V. óptima ocasión para conocer nuestro país y recoger impresiones de los trazos caracteristicos de nuestres costumbres, de nuestras tradiciones, de nuestra cultura y de nuestra vida social y popular.

Agradeceríamos profundamente que se dignara darnos una respuesta afirmativa hasta el dia 15 de Abril, con el fin de que podamos ocuparnos con tiempo de cuantas formalidades séan concernientes a su viaje.

Con esta esperanza, nos congratulamos de poder manifestar a V. nuestros sentimientos de admiración e nuestra más alta considerácion.

Lisboa, 21 de Marzo de 1935.

El Director

ANTONIO FERRO

­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­_________________________________________

 

SECRETARIADO DA PROPAGANDA NACIONAL

PRESIDÉNCIA DO CONSELSO

GABINETE DO DIRECTOR

 

Señor D. Miguel Unamuno

MADRID

 

Muy  Señor mio,

Recibo carta del Encargado de Negocios de Portugal en España, adjuntándome la de V. en la que admite la invitación que tuve el honor de dirigirle para su venita a este Pais con ocasión de las Fiestas de la Ciudad.

Es precisamente por conocer el cariño, el amor que V. profesa a esta Nación y por reconocer su altísimo valor y sus cualidades relevantes de eximio escritor y eminente filosofo y psicólogo insigne, que este Secretariado de la Propaganda Nacional que es un organismo del Estado, tuvo el honor de convidarlo para que, aprovechando la conjuntura de las Fiestas de Lisboa, tuviese ocasión de documentarse y apreciar nuestra renovación y nuestro vivir de hoy.

Para efectos de cuanto diga respecto a su viaje, tendré el placer de dirigirme nuevamente V.

[Para acudir a las fiestas de la ciudad (Lisboa) Unamuno viaja por última vez a Portugal. Un año después moría en Salamanca el mayor lusitanista español.]

Profundamente grato a sua aquiescencia y considerandome honrado en renovarle mi admiración y estima, me ofrezco de V.

Lisboa, 11 de Abril de 1935
ANTONIO FERRO

 

Unamuno chega Lisboa em Junho de 1935 e durante esse mês e o subsequente publica vários artigos intitulados «Nueva Vuelta a Portugal» no jornal diário  «Ahora».

António Ferro e António Quadros preservavam nas suas bibliotecas inúmeras obras de e sobre Miguel de Unamuno, em português e em espanhol. Essas obras integram hoje o acervo da biblioteca da Fundação António Quadros.


Destacamos, a título de exemplo:


Del sentimiento trágico de la vida
. [3.ª edição], de Miguel de Unamuno. Madrid: Renacimiento, 1928. [PT/FAQ/B-L/03422]

Antología poética
. [3.ª edição] de Miguel de Unamuno. Madrid: Espasa-Calpe, 1952. [PT/FAQ/B-L/03424]

El Otro y el Hermano Juan
, de Miguel de Unamuno. Madrid: Espasa-Calpe, 1948. [PT/FAQ/B-L/03427]

Por Tierras de Portugal y de España
. [3.ª edição] de Miguel de Unamuno. Madrid: Espasa-Calpe, 1946 [PT/FAQ/B-L/03430]

Soledad.
[2.ª edição] de Miguel de Unamuno. Madrid: Espasa-Calpe, 1948 [PT/FAQ/B-L/03431]

Visiones y Comentarios,
de Miguel de Unamuno. Madrid: Espasa-Calpe, 1948 [PT/FAQ/B-L/03431]

La Filosofia española actual.
Unamuno, Ortega, Morente, Zubiri, de Julián Marías. Madrid: Espasa-Calpe, 1948. [PT/FAQ/B-L/03379]

A Viagem em Antero e Unamuno. Sonho e temporalidade regeneradora
, de Isilda Leitão. Salamanca: Luso-Española de Ediciones, 2009         [PT/FAQ/B-L/04583]

Epistolario y escritos complementarios, de Miguel de Unamuno e Juan Maragall.
Madrid: Seminarios y ediciones, 1971. [PT/FAQ/B-L/07123]

Fedra. Teatro,
de Miguel de Unamuno. Tradução de Luís de Sttau Monteiro. Lisboa: Edições Tempo, [1962]. [PT/FAQ/B-L/07389]

Unamuno, Ensayista Agnostico y Poeta Teologal, de Pedro Rocamora. Separata de «Revista Arbor», n.º 228. Dezembro 1964. Madrid, 1965. [PT/FAQ/B-L/08789]


Miguel de Unamuno ou Le paysage et l'âme espagnole I
.    [Conferência em Bordeaux a 16 de Maio de 1953 e, em Paris, a 17 de Maio de 1954], de Joseph Moreau. [PT/FAQ/B-L/08912]

 

Referências e citações

Arquivo Histórico da Fundação António Quadros (correspondência, fotografias, artigos publicados na imprensa)

Dias, Angel Marcos de (introdução, leitura e notas): "Epistolário de Unamuno". Paris: F. Calouste Gulbenkian, 1978. Colecção Cultura Medieval Moderna, Volume XIII.

Ferro, António: "Prefácio da Republica Espanhola". Lisboa: Empresa Nacional de Publicidade, 1933.
 

04 — Lembrando Tarsila do Amaral (140 anos depois do seu nascimento) e a sua amizade com Fernanda de Castro,
por Mafalda Ferro

 

Lembramos hoje Tarsila do Amaral nascida no dia 1 de Setembro de 1886, há 140 anos, em S. Paulo, cidade onde em 1922 conheceu Oswald de Andrade, seu futuro marido a partir de 1926 (depois da anulação do primeiro casamento de Tarsila), e Fernanda de Castro de quem se viria a tornar, desde então, grande amiga.


Autora de pinturas, desenhos, retratos, esculturas e ilustrações que se destacou-se ainda como cronista e tradutora, Tarsila 
integrou em 1922 um grupo associado ao modernismo brasileiro a que se chamou o «Grupo dos Cinco». As acções deste  Grupo, constituído por duas pintoras e três escritores (Anita Malfatti, Tarsila do Amaral, Menotti del Picchia, Oswald de Andrade e Mario de Andrade), viriam a inspirar várias gerações de artistas e escritores brasileiros. Tarsila é considerada uma das grandes influências do movimento da arte moderna no Brasil.

 

Um dos retratos mais emblemáticos de Fernanda de Castro, equiparado aos de Sarah Affonso (capa de "Ao Fim da Memória I"), Anita Malfati (capa de "Cartas para além do tempo") e, ainda, o de Inês Guerreiro, é sem dúvida, o de Tarsila do Amaral, pintado em 1922 ou em 1923 no Rio de Janeiro; este retrato consta na capa de "Ao Fim da Memória II" de Fernanda de Castro que sobre a sua autora escreveu em "Memórias, 1906-1987" (Fundação António Quadros, 2024):

 

[...] A propósito de Paris, lembro-me de que estive lá a primeira vez, já casa da, com vinte e três anos, se não me engano, a convite dos nossos grandes amigos brasileiros Oswald de Andrade e sua mulher, Tarsila do Amaral, que conhecêramos em São Paulo no ano anterior. Tarsila era uma das maiores pintoras do Brasil, que viria a tornar-se uma celebridade, e nesse momento discípula de Fernand Léger. Ela e Oswald viviam uma vida de simpática boémia, de alegre camaradagem com artistas e escritores, sobretudo com músicos, pouco ou nada conhecidos ainda, mas que depressa iriam afirmar os seus nomes. O pequeno e heterogéneo grupo a que logo nos associámos era assim constituído: Oswald e Tarsila, Honegger, Erik Satie, Poulenc, Picabia, Paul Poiret, o intelectual da moda, o António e eu.  Como ele próprio nos disse, Oswald tivera uma pequena herança no Brasil, que no seu entender não chegava para nada a sério, resolvendo  por isso gastá-la com Tarsila e os amigos, fazendo enquanto durasse «une bombe à tout casser» [sic].

Todos os dias, às oito horas, nos encontrávamos em qualquer restaurante ou em qualquer bistro, e cada um pagava o seu jantar. Depois era tudo por conta do Oswald, que metodicamente organizava os seus programas. Para começar, o Théâtre des Dix Heures, ou qualquer outro teatrinho de diseurs e de chansonniers; depois uma curiosidade de Paris, uma por noite. Lembro-me de Charpigny, uma linda voz e uma linda mulher que, afinal, era um homem; de Fréhel, que muitos intelectuais consideravam a maior cantora realista de todos os tempos; de Cora Madou, que cantava de smoking, coisa que naquele tempo provocava um certo escândalo, mesmo em Paris; de Susy Solidor, cuja boîte era célebre por ter as paredes forradas de retratos seus: óleos, gouaches, aguarelas, carvões, assinados por nomes célebres ou a caminho da celebridade, entre os quais, se a memória não me atraiçoa, Fujita e Modigliani.


Íamos depois, pelas três, quatro horas da manhã, a um dos muitos bistros da Rue de Lappe, nessa altura em que a Rue de Lappe estava na moda e era ainda a sério e não para turistas, quando os tiros e as facadas eram também a sério e bastante frequentes. Finalmente, ao raiar das cinco, íamos aux Halles comer a famosa soupe à l’oignon, conhecida no mundo inteiro. [pp. 98-99]

[...] O Oswald... Como é que ele havia de achar extraordinária esta história do recital, quando, dias antes, ao perguntar como se chamava um filho que tinha, já crescidinho, que não era, naturalmente, filho da Tarsila, me respondeu muito sério:

— Lança-Perfumes Rodo-Metálico.

— Hem?! – perguntei-lhe eu assombrada. – Que brincadeira é essa?

— Não é brincadeira. O menino nasceu no Carnaval, compreendes?

— E então? O que é que isso tem?

— Lança-Perfumes é bisnaga, Rodo é marca, Metálico é qualidade.

E repetiu muito satisfeito:

— Lança-Perfumes Rodo-Metálico.

— Ele foi mesmo baptizado com esse nome?

— O que é que tem? O coitado é que não tem imaginação nenhuma, quer que todo o mundo lhe chame só de Rodo.

Nunca consegui averiguar, de maneira satisfatória, se isto era mesmo verdade ou simplesmente blague, mais uma blague do Oswald, mas conto esta história para dar a ideia do bom humor, da verve, da inesgotável fantasia do autor de Memórias Sentimentais de João Miramar, Pau-Brasil, Os Condenados, etc. [pp.145-146]


[...] 
Nessa noite éramos todos convidados de D. Olívia Penteado. A sua casa, ou, antes, o pavilhão do seu jardim era, como disse o António, a primeira Academia Livre de São Paulo, gabinete de torturas da sociedade paulistana, com os primeiros Picassos e os primeiros Légers que tinham chegado ao Brasil. Segal, Tarsila, Anita Malfati, Sérgio Milliet, Plínio Salgado, etc., reuniam-se em tremendos conciliábulos e conspiravam continuamente contra todos os burgueses, contra todos os eteceteras da vida, como lhes chamou o António, no seu manifesto Nós, publicado pela Klaxon, a revista do grupo. Pois, como ia dizendo, saímos do hotel essa noite, para irmos a casa da D. Olívia, como todos lhe chamavam. [p.149]


[...] 
A propósito deste mesmo vestido verde, lembro-me de que Tarsila do Amaral e Anita Malfati, as duas maiores pintoras do Brasil, me pediram para fazer o meu retrato com o dito vestido. Posei para as duas ao mesmo tempo e ainda há poucos anos me disseram que os dois retratos tinham sido expostos em São Paulo, numa retrospectiva da pintura brasileira, dos anos vinte e trinta." [p.146]

 
05 — Eugénia Lima (1926-2014): de miúda de Castelo Branco a Rainha do Acordeão,
por António Coito

 

Assinalar o centenário do nascimento de Eugénia Lima (1926/2026) é evocar um caminho impressionante no panorama cultural e artístico português, marcado pelo pioneirismo, pela irreverência, pelo carisma, pela devoção e, acima de tudo, pelo Amor. O Amor profundo pelo seu público, a quem tantas vezes agradecia a Vida que lhe dava, mas também o Amor pelo seu Sonho, o acordeão, companheiro inseparável de uma existência inteiramente dedicada à música.

Essa ligação íntima entre Vida e Sonho encontra expressão maior na sua música Minha Vida, Meu Sonho, síntese perfeita de um caminho no qual o talento e a entrega caminharam sempre de mãos dadas. O verso “Sou aquilo que sonhei”, colhido da letra dessa mesma música, escrita por Ivo Covaneiro, ecoou em inúmeros serões, tornando-se um espelho fiel do percurso da artista. Não se pretende, de modo algum, através deste pequeno texto, traçar um exaustivo excurso biográfico da artista, mas antes dar alguns elementos que se consideram de grande relevância quando falamos de Eugénia Lima, especialmente neste contexto comemorativo, que merece, de facto, ser assinalado.

A 29 de Março de 1926, numa casa da Rua do Espírito Santo, em Castelo Branco, nascia aquela que se viria a tornar um dos grandes nomes do acordeão em Portugal e no mundo, de seu nome Eugénia de Jesus Lima. Filha de Mário António de Lima e de Maria do Rosário Marques Martins de Lima, foi baptizada na histórica Paróquia de São Miguel da Sé de Castelo Branco, a 13 de Maio do mesmo ano, em ambiente de Festa de Nossa Senhora de Fátima. O pai, Mestre Lima, afinador de acordeões, foi o seu primeiro professor. Por influência de José Ferreiro, Mário Lima compra um acordeão cromático para os primeiros passos da filha. Com apenas 4 anos, em 1930, estreou-se como intérprete, no Cineteatro Vaz Preto, em Castelo Branco, tocando a marcha Lavadeiras de Caneças (composta por Frederico de Freitas) no final de uma sessão de filmes mudos, iniciando-se, assim, o seu percurso musical. Dois anos mais tarde, integrou, como instrumentista, o elenco da revista Peixe Espada, no Teatro Variedades, em Lisboa. Aos nove anos, apresentou-se no Festival de Folclore, em Castelo Branco, transmitido em directo pela Emissora Nacional (EN), num programa de Fernando Pessa, intitulado Folclore de Portugal. Dos tempos de escola, lugar que lhe causava alguma preguiça, guardava com estima os afectos e ensinamentos das professoras Mariquinhas e Maria da Costa.

A sua actividade intensa, ainda jovem, justificou um pedido especial, aos 13 anos, dirigido o Presidente da República de então, General Óscar Carmona, uma vez que a lei proibia a apresentação pública remunerada de menores em casas de espectáculo. Rapidamente, Eugénia recebera uma resposta para que fosse à Inspecção-Geral dos Espectáculos, onde o inspetor Óscar de Freitas já tinha o alvará que lhe concedia a devida autorização. A pequena Eugénia começava formalmente a sua carreira, tendo passado pelo Casino do Estoril, o Éden Teatro, o Solar da Alegria, o Café Luso, o Retiro da Severa, entre outros. O fascínio pela menina-prodígio leva António de Oliveira Salazar a querer conhecê-la pessoalmente. Eugénia Lima passa a estar autorizada a actuar em todo o território nacional e colonial.

Em 1940, o seu pai tentou inscrevê-la no Conservatório de Lisboa, mas os responsáveis disseram-lhe que o Acordeão não tinha entrada naquela instituição, dado que era visto como um instrumento menor, de índole popular. Foram, então, seus professores de Música os dois Maestros da Banda Militar de Castelo Branco, José Piló Rodrigues Cambaio e Mário de Nascimento Ribeiro. Em 1946, participou no Congrès Mondial de l’Accordéon, em Paris, a convite da fábrica Fratelli Crosio, projectando-se além-fronteiras. No ano seguinte, alcançou o 1.º lugar no concurso “Acordeões de Portugal”, promovido pela Emissora Nacional, distinção que consolidou o seu estatuto de jovem virtuosa. Na mesma década, um pouco antes, casou com José Francisco da Graça Ramalho Gomes, união arranjada pelos pais e terminada pouco depois, mais tarde confirmada com uma Declaração Canónica de nulidade. Deste relacionamento, sabemos que Eugénia Lima foi infeliz e sobre ele jamais quis falar por ter sido vítima de violência doméstica e de não ter tolerado tal situação.


Nas décadas de 1950 e 1960, destacou-se ainda como a primeira mulher piloto de automóveis de corrida em Portugal, conquistando diversos prémios nacionais e internacionais no automobilismo. O interesse pelos carros de competição acompanhou-a até ao fim da vida, confessando, por vezes: “sei que tenho o pé pesado quando conduzo o meu Jaguar”. Recordava frequentemente um rali no Estoril, no qual obteve o segundo lugar, porque “o primeiro teria sido atribuído a uma concorrente que conduzia um Porsche [acompanhado de uma grande gargalhada]”. Evocava também os primeiros tempos após obter a carta de condução, quando a sua presença ao volante despertava surpresa e admiração, ouvindo-se exclamações como: “Uma mulher a conduzir!”. Em 1957, fundou, em Castelo Branco, a Orquestra Típica Albicastrense, da qual foi primeira directora e maestrina, assumindo como missão a preservação e divulgação do folclore da Beira Baixa. Cinco anos mais tarde, recebeu o chamado Óscar da Imprensa, como melhor Solista de Música Ligeira, sendo a única acordeonista a receber tal distinção. Por várias vezes e circunstâncias, a artista agradecia aos jornalistas de um tempo que ajudaram a nobilizar toda uma carreira.



Nos anos 70, nos seus vários concertos, vem parar às localidades do Casal do Rei e, mais tarde, do Alto da Serra, tendo criado uma grande estima pela cidade de Rio Maior, para onde decide vir morar. Em idade madura, casa com Joaquim Agostinho, de quem guardava boas recordações, vivendo com ele até ao seu falecimento. Os seus restos mortais encontram-se sepultados juntamente com os dos pais de Eugénia Lima, na mesma campa onde jaz a Artista no Cemitério de Rio Maior. Ficando viúva, não deixava de se sentir amada, até porque eram muitos os casais que lhe diziam com frequência que se conheceram graças a si, em bailes e ao som do seu Acordeão. Sentia-se, por isso, realizada como «Madrinha Espiritual» de tantos filhos que nasceram. Dedicou o tema Linda Aninhas a uma tal “Filha de Coração” e no seu álbum de recordações guardava numerosas fotografias tiradas em dezenas de Bactizados e Casamentos em que foi Madrinha.


Foi a primeira artista convidada especial do programa Le Monde de l’Accordéon, da TF1, em 1979. A partir do final da década de 70, dedicou-se também ao ensino particular do acordeão, enquanto desenvolvia uma notável actividade criativa: compôs mais de 200 obras, muitas registadas na Sociedade Portuguesa de Autores, explorando géneros como corridinho, fado-canção, valsa, vira, marcha e pasodoble, entre muitos outros. Gravou cerca de cinquenta fonogramas e destacou-se por um estilo performativo marcado pela improvisação, ornamentação e uso expressivo dos baixos, integrando elementos da tradição portuguesa e influências da escola francesa de acordeão, nomeadamente nas valsas-musette. Nos últimos trinta anos de carreira, adoptou um acordeão de botões Scandalli, à 5.ª voz, instrumento raro que lhe permitia amplas combinações tímbricas.


A sua excelência técnica e versatilidade tornaram-na modelo para várias gerações, projectando-a como embaixadora do acordeão em Portugal e no estrangeiro. Actuou em países como Alemanha, Argentina, Áustria, Bélgica, Brasil, Canadá, Espanha, Estados Unidos, França e Venezuela.


Entre as condecorações recebidas contam-se o grau de Dama da Ordem Militar de Santiago da Espada, atribuído pelo Presidente António Ramalho Eanes, em 1980; a Medalha de Mérito Cultural, em 1986; e o grau de Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique, conferido pelo Presidente Mário Soares, em 1995. Orgulhava-se igualmente do “Diploma do Curso Superior de Acordeão”, obtido no Conservatório de Acordeão de Paris, que simbolicamente elevava o instrumento ao estatuto dos clássicos.


Ao longo da vida, conviveu com figuras como Pablo Picasso e Salvador Dalí, admirou profundamente Wolfgang Amadeus Mozart e manteve uma fé inabalável em Nossa Senhora de Fátima, a quem atribuía a cura milagrosa de uma grave doença na juventude. Já no final da vida, enfrentando a doença de Parkinson, inspirou-se na coragem do Papa João Paulo II. Quando estava longe de casa sentia muitas vezes Saudades; a princípio dos pais e da família e, mais tarde, da família Coito, que a acolheu e acompanhou durante mais de 40 amos até à hora da sua morte. Sentia também Saudades «dos tempos mais simples quando era garota».


No dia 29 de Junho de 2013, inaugurou-se em Rio Maior o Recanto Eugénia Lima, local que a artista desejava que fosse um espaço vivo, de conforto e acolhimento, optando minuciosamente pela ideia de RECANTO, lugar recatado e confortável, em detrimento da ideia de MUSEU. Nesse mesmo dia, recebeu do Chefe da Casa Real Portuguesa, Dom Duarte, Duque de Bragança, aquela que foi em tempos a Ordem Dinástica mais importante de Portugal, a Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, Rainha e Padroeira de Portugal. Um ano depois, foi fundado o Instituto Eugénia de Jesus Lima — Rainha do Acordeão, sob a orientação de António do Coito e Maria da Conceição do Coito, Presidente da Assembleia Geral e Presidente da Direcção, respectivamente. A cidade de Rio Maior, de dois em dois anos, continua a acolher e organizar a Gala de Acordeão Eugénia Lima, no Cineteatro da cidade, como forma de homenagear a artista, o seu legado e a beleza da Vida.


A miúda de Castelo Branco cresceu, viveu intensamente e tornou-se a Rainha do Acordeão, epíteto insubstituível, que lhe foi atribuído, em 2013, pela Fundação Histórico-Cultural Oureana, atravessando décadas e gerações. É caso para dizer que cumpriu a máxima de «o sonho comanda a vida», fazendo o mundo pular e avançar. Uma forma de estar que reflecte alguém que viveu não num mar de rosas, mas de maneira simplesmente desafogada — aquela simplicidade com que sempre gostou de estar, junto do seu público e amigos.

Sou uma pessoa afortunada. Há artistas que trabalham uma Vida inteira e não chegam a lado nenhum. Cheguei onde cheguei graças ao meu público.

 

É impossível não lembrar a sua cor favorita — o roxo — que simboliza a magia, o mundo espiritual, a busca interior, a calma, a imaginação, mas também a inquietação que caracteriza o artista. O que seria a existência humana sem inquietação? Eugénia refugiou-se na Melodia e nas Pessoas.

Realizada totalmente não, porque nenhum artista assim se pode sentir! 
Sinto que poderia ter feito mais, nunca estarei totalmente satisfeita.

 
Eugénia Lima ensina-nos a saborear a beleza das pequenas coisas e a depositar amor em cada gesto, em cada empreitada da Vida. O receio que carregava em cada espectáculo, aparentemente símbolo de fragilidade, era, sobretudo, a consciência da responsabilidade de honrar todos os que acompanharam e sustentaram, incondicionalmente, o seu caminho de 84 anos de carreira, porque só quem sente profundamente compreende que “o segredo é amar. Amar a Vida / com tudo o que há de bom e mau em nós”, como escreveu Fernanda de Castro.


Nota:
O presente texto encontra-se publicado no fascículo comemorativo do centenário de nascimento da artista, coordenado por Sérgio Coito e com grafismo de João Frazão, juntamente com uma pen drive com 100 músicas. As imagens pertencem ao espólio do Instituto Eugénia de Jesus Lima — Rainha do Acordeão e foram tratadas pelo atelier de fotografia e vídeo Ritmos Ilustrados, não existindo cotas atribuídas.


Fontes consultadas

Américo Lopes de Oliveira & Mário Gonçalves Viana (1967) – Dicionário Mundial de Mulheres Notáveis. Lello & Irmão, p. 734.

Carla Raposeira & Carla Nunes (2010) – “Eugénia de Jesus Lima”. In: Salwa Castelo-Branco (dir.), Enciclopédia da Música em Portugal no século XX (vol. 3, pp. 699–700). Temas e Debates.

Carlos Evaristo (2015) – Eugénia Lima de A a Z — Nem Oito nem Oitenta, Oitenta e Oito (texto biográfico, guião e roteiro). Fátima: Regina Mundi Press.

Espólio do Instituto Eugénia de Jesus de Lima, Rainha do Acordeão, fundado a 25 de Março de 2015.

Maria João Gama (2010) – Há Conversa II com Eugénia Lima. Programa de televisão exibido na RTP Memória.

Maria João Gama (2017) – Tributo a Eugénia Lima. Programa de televisão exibido na RTP Memória.

Nunes Forte (1992) – O que é feito de si? com Eugénia Lima. Programa de televisão transmitido na RTP2 (RTP – Rádio e Televisão de Portugal).

 
06 — Que livros trago comigo?
Divulgação

A ATUAAÇÃO — Associação Jovem de Rio Maior surgiu, em contornos diferentes dos actuais, em 2011, na cidade de Rio Maior, inicialmente com o nome Projecto RM. Mais tarde, em 2014, é formalmente constituída, com o apoio do CLDS+ Rio Maior, tendo como primeira missão dinamizar um grupo de teatro amador juvenil —  “+Teatro”.

Um dos seus projectos com maior êxito, ATUALEITURA, surgiu em Outubro de 2019, data em que aconteceu a primeira sessão presencial nas actuais instalações da nossa associação. Em Março de 2020, em virtude das limitações e directrizes impostas pela Direcção-Geral da Saúde (DGS), resultado do surgimento e agravamento da situação pandémica, passou a ter actividade online, através das redes sociais. Contudo, seis anos volvidos desde a sua criação, o Clube de Leitura ATUALEITURA apresenta-se novamente em moldes também presenciais, reconhecendo-se a importância da dinamização de actividades para a comunidade e cultivando a proximidade dos riomaiorenses numa sociedade cada vez mais isolada e dispersa.


Assim, com o objectivo de reunir os demais interessados pelos livros, apresenta-se a primeira sessão do Clube de Leitura, a realizar no próximo dia 3 de Outubro de 2026, pelas 16:30h, no Beleza Teatro, sob o mote «Que livros trago comigo?». Todos estão convidados a aparecer, beber um café e partilhar os livros que trazem consigo — os que andam a ler, os que deixaram marca ou qualquer outra interpretação que tenham da pergunta que é lançada.


Neste primeiro encontro, haverá ainda lugar ao sorteio de um voucher de 10,00€ e dois de 5,00€ para usufruir no alfarrabista ANACRONISTA.


Para mais informações, contactar:

E-mail: clubedolivroatualeitura@gmail.com

Instagram: atualeitura.rm

Facebook: ATUAAÇÃO

 

07 — Livraria António Quadros
Obra em Promoção até 14 de Outubro de 2026

 

Autoria e prefácio: António Ferro.

Título: Estados Unidos da Saudade.

Descrição: Importante registo literário e iconográfico das iniciativas realizadas por António Ferro (SPN/SNI) em Portugal e no Brasil, em prol de um relacionamento cultural entre os dois países.

Colecção: «Política do Espírito».

Tipologia: Obra profusamente ilustrada com reproduções fotográficas.

Idioma: Português.

Edição — Lisboa: Edições SNI, 1949.


PVP
: 16,00 (até 14 de Setembro)

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